quarta-feira, 25 de maio de 2016

A HORA DO PORTO DA BARRA

Foto Sérgio Siqueira

Anos 70 Bahia  Episódio 1

Como diz a fotógrafa Eva Cristina, a Evinha, o Porto da Barra era o start, onde tudo começava, todos se encontravam e sabiam o que ia rolar na cidade. A resenha era feita olhando aquela enseada cheia de barcos de pesca, com uma água de um azul transparente, boa para nadar, mergulhar ou simplesmente ficar de bobeira. Dali, arrancadas para Pituaçu, Praia dos Artistas, Stella Maris e Arembepe. O tempo era grande e dava para fazer muitas coisas. No Porto da “barra limpa” se sabia das notícias.

Foi na areia da praia que Charles Mocó, dono do bar e restaurante Berro d’Água, ficou sabendo que sua foto estava estampada numa revista famosa, junto com Robert De Niro. O ator tinha passado seu aniversário no Berro, anônimo, levado por Heitor Reis. Bom RP que era, Charles ia sempre de mesa em mesa e pousou na de Heitor. Um fotógrafo que estava no local identificou De Niro e, na surdina, clicou a foto, mandando o grande flagrante para a revista.

Paulo Andrade: foto na balaustrada do Porto da Barra em 1976

O escritor e curador Diógenes Moura, na apresentação da obra de um fotógrafo que fez um ensaio sobre o Porto da Barra, escreveu com sutileza, poesia e precisão sobre esse espaço tão vital para a geração setenta. Eis um trecho, intitulado “A lenda do barato total”:

“Na época do lindo sonho delirante, o Porto da Barra, em Salvador, na Bahia, era a casa de todos nós. Uma pequena enseada em forma de lua crescente onde tudo era possível, nos fazia os mais felizes dos mortais, ali, onde alguém poderia sair nu do mar e aquele corpo ao sol era a mais poética das mensagens da natureza. Paz e amor para todos. O último baseado do dia sempre era a preparação para que pudéssemos aplaudir o pôr-do-sol. Foram tantos os personagens inesquecíveis, presentes e imaginários. De Jack Kerouac a Baudelaire. De Jimmy Hendrix a Gibran Khalil Gibran. De Marquinhos Rebu a Raimunda Nonata do Sacramento, a moça pobre do bairro do Curuzu que descia a rampa com seu porte de ébano em direção às areias e de lá voou para as passarelas de Milão e Paris, e voltou Luana de Noailles, a condessa. Os amigos dos amigos eram os nossos amigos e nada fazíamos a não ser viver, viver e viver naquele Porto da Barra. Apenas isso sempre foi muito. Tomávamos mandrix com água de coco para beijarmos a boca vermelha da psicologia no barato total que eram nossos dias. Assim passamos os anos 70 e o início de 1980. Indo e vindo do Porto da Barra, um lugar tão histórico quanto uma um acarajé ou como a mão estendida do poeta Castro Alves, na praça que leva seu nome, à beira da Baía de Todos os Santos...”

Porto anos 70 - foto A Tarde, reproduzida no blog Antiguinho, de Jorge Sartori - com Keit Veloso e Oto 

Anos 70 Bahia – No esplendor dos 70, o Porto fervilhava com os corpos ensolarados de Gal, Caetano, Gil e uma plêiade de celebridades. Na balaustrada já rolavam os aplausos a cada pôr-do-sol; o verão era uma celebração contínua, com as festas de largo que começavam no início de dezembro e se sucediam até o carnaval; o Baile das Atrizes era acontecimento nacional, o teatro Vila Velha, sob o comando do imortal João Augusto, fulgurava com espetáculos e peças vanguardistas; vindos do Rio e com propostas diferentes mas não antagônicas, Baby Consuelo e Vinicius de Moraes aportaram na Bahia, caldeirão borbulhante da diversidade e “terra prometida” da artistagem.

Laodicea Albuquerque – Belíssimo revival... saudades imensas... ontem, por acaso, passei na Barra e revivi na mente e coração todas as estórias belas desse tempo que mora em nossas almas... esse texto me emocionou e alegrou-me demais... salve os anos setenta, salve o Porto da Barra, salve a vida vivida com beleza, sorrisos... Ah! que saudades que tenho da Barra das nossas vidas... Aplausos!!!

Anos Setenta Bahia – Bem-vinda a bordo, Laodicea Albuquerque! Contamos com sua preciosa participação no resgate das histórias e no desenvolvimento do livro Anos Setenta Bahia.

Fernando Noy – Inesquecivel portão do Paraiso encarnado em todos os que ali passávamos, a fazer dos sonhos brilhante realidade... Amor, paz e vocêssss!!!

Fernando Noy – Todos no mesmo embalo... como diria Lia Robatto: vertigem sagrada!!!

Eurico de Jesus – Maravilha... o texto de Diógenes Moura sintetiza tudo em forma caleidoscópica!

Eva Cristina Freitas – Só tombando! (...) Parabéns pelo lindo texto!

Cristina Sá – Estou amando, adorei o texto, no aguardo de muitos outros!

Edmilson Araujo – O texto já diz tudo; vivi esse tempo e era frequentador assíduo do Porto da Barra, pois morava no Campo Grande, que fica perto. Adorava ficar boiando nas águas do Porto!!! Tempo bom!

Mary Barbosa – Saudade enorme desta época tropicalista. Eu alí, na Marques de Leão, bem no Farol da Barra, numa residencia universitária de Itaberaba, comparecia no porto, batia ponto e voltava para casa antes da meia noite. Eh, tempo bom!!!

Geraldo Dias – Quem viveu, viveu...

Zelia Uchoa – Encontro certo todos os dias. Lindos pôr-do-sol!!!

Prabhu Edmilson – Bem lembrado aí da Luana, a estátua de ébano mais linda que vi em Salvador. Do Curuzu para o mundo!!! Tomei conhecimento da Luana quando trabalhava no antigo e desaparecido "Jornal da Bahia". Acompanhamos a sua fama internacional na Itália e na França. Foi, com certeza, a primeira modelo negra de fama internacional. Não sei agora onde está reinando, mas tenho certeza que ostenta aquela mesma postura dos anos 70.

Aninha Franco – Era uma casa aconchegante o Porto da Barra: eu ia pro Porto, saía pra fazer audiência no fórum e voltava pro Porto, eu e Rocinante.

Ivonete Moniz Pacheco – Era um sonho.

Prabhu Edmilson – Joguei muito baba no Porto. Era o famoso baba das 5, ou seja, o baba só começava às 5 da tarde, quando a praia estava vazia. Eu morava no Campo Grande, portanto o Porto era a praia mais perto e aconchegante. Adorava ficar boiando naquelas águas serenas abençoadas.

Renato Dantas – Confesso que vivi...

Graça Góes – Saía correndo do Rio de Janeiro para o Porto da Barra. Muito bom!

Cristina Sá – Porto da Barra, lindo, sempre!

CHARLES PEREIRA – Cresci, trabalhei (Mocó, Sidarta, Berro Dágua), passei toda minha vida no Porto da Barra e ainda hoje estou por aqui, estou por perto, as pessoas não são as mesmas, o tempo passou...

Fatima Barretto – Meu, nosso quintal de super luxo sem qualquer luxo! Encanto todos os dias! Uma tela de Monet dinâmica e mutante a cada tarde! Quantos baratos! Tudo barato! Verdadeiro barato de viver!

Edyna Pereira – Esse sentimento é comum entre todos os que vivemos os anos setenta, é tão mágico que, até hoje, quando vem à memória os momentos maravilhosos, a lembrança é quase um retorno, o sabor ressurge com toda força, como se ainda estivéssemos lá! Não sei explicar esse sentimento, porque é de pura m-a-g-i-a!

5 comentários:

  1. ...Não há como não lembrar o que diz a 'cantigantiga' dos NB: "...Não!... Não é uma estrada!...É uma viagem-e-e-eemmm... Que...Que não tem sul nem norte,nem passagem..."...
    Havia uma 'linha imaginária' que ligava todo mundo,aos verdadeiros e inesquecíveis 'episódios' dessa incrível história/estória,aos seus inúmeros e sequenciados 'cenários',além do que acontecia - e acontecia muita coisa ótima,nessa hora tão contrastiva,onde 'a repressão' e a 'censura' lutavam contra a imensidão de atividades culturais e artísticas,literárias,poéticas,de Cinema,de Dança,Teatro,Música e ... Miríades de atividades,além dos carnavais e os antológicos 'shows',espetáculos os mais diversificados - sem grandes incentivos governamentais,diga-se...-explodindo pela cidade e seus bêcos,boates,praias e happenings e sei lá mais o que,cheios de gentes e mais gente,e ' chame gente!...',apesar do lado pesado da presença dificílima da 'gloriosa' e seus funestos agentes e cagoêtes e 'dedos duros'. Vivia-e uma explosão sem contenção possível ou praticável,dada a massa imensa que a tudo ocupava e dava a sua 'assinatura de presença',não importando a persiga daquele " delegado que não gostava de 'rípe'..." ou o que fosse em tentativa de reprimir essa verdadeira 'onda'... Lembro-me de certo espetáculo ( estava atuando,era produtor e faz-tudo' ao lado de João Augusto,e a 'censora' lhe pedindo,acreditem,: '...pô,Jão... Não posso sair daquí sem cortar um pouquinho...',pois 'curtia' o trabalho desenvolvido no Villa capitaneado por êle,que não temia ser prêso ou algo semelhante,pois já respondera a inúmeros 'perguntados'.Havia uma cena de nudez,uma passagem,uma travessia no palco,em hora de troca de música,coisa rápida. Fiz a cena,e... 'Me piquei Pra Arembépe',até João mandar um aviso e a vida seguir o seu curso,à moda daquele tempos tão mestiços,de aridez e loucura,de morte e prisões,de um triste lado,com Vida intensa e a Arte,gentes e gentes,do outro,todos fazendo história Viva e vivida,sem ter mêdo por garantias. Sou e serei 'Fã-camisa-12',do grande Florisvaldo Mattos,mas,creio que haverá essa hora própria,dessa 'contação' de todas as loucuras,dess'hora única,tenho certêza!... Esse trabalho/espaço de vocês,já dispara tal 'gatilho'. Não?!... Abraços bem 'rajnish',tão à moda,à época,bom e interminável,para vocês.

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  2. como eu nasci numa travessa da ladeira da Barra, na Tenente Pires ferreira, o porto era meu quintal. nos anos 70 me lembro do Jorge mautner com Nelson jacobina e sua filha Amora, hoje diretora na Globo, ainda uma criança de uns dois anos e do luiz melodia cercado por uma cerca de garrafas de cerveja. tb tinha o por do sol na balaustrada do Farol. tb tinha os pegas de carro aos domingo no Farol depois da meia noite.

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  3. Porto da Barra era um
    Farol. Dos dourados e ansiosos corpos que se uniam aos famosos locais e internacionais. O Brasil fervia de tristeza, mas o Porto, não! Era o umbigo dos malucos, o colo dos meninos e meninas mais lindos do Brasil. O Porto era mãe e amor. E paz. E fumaça e por do sol. Eu amava jogar frescobol. E adorava ganhar dos poucos machões que transitavam pela enseada. Ali tinha pertencimento e alegria. Nada era falso. Tudo tinha sentido e amor. Amor de beijar na boca, amor pela nudez, amor pelo próximo. Porto dos Setenta, enseada dos namoradxs e namoradxs, e que taixs. Vi Rita, Janis, todos os Dzi e Trans Chans se deleitarem com as belezas do sol, dos seus e dos outros. Caetano, Gal, Wilma, Petunia, Keka, Arquinho, Márcio, Marquinhos cocota, aninha e as holandesas, Doia e eu.. éramos tantos com tanta luz, e sem medo do anoitecer. Depois, Berro, festas de largo, Homes. Arembepe.. No outro dia, trabalho, mas depois, o iluminado o eterno Porto da barra sempre pronto para nos abraçar.

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