quarta-feira, 25 de maio de 2016

NOVOS BAIANOS NA CONCHA: TEM ARGENTINO NO ESPELHO D’ÁGUA


Anos 70 Bahia – Episódio 2


Sábado à noite de embalo, na vertigem dos anos 70: a Concha Acústica lotada, som nas caixas e o suingue dos Novos Baianos enlouquecendo a multidão. De repente, numa catarse, o argentino Fernando Noy, trajando colorido figurino, invade o espelho d’água que separa a platéia do palco e, caprichando nos passos de danca, joga água para todos os lados, em louca coreografia. A dança de Noy tornou-se uma atração à parte e incomodou Baby, que parou a cantoria, respirou fundo e clamou em alto e bom som: “Vocês escolhem! O argentino ou a gente!” Ensandecida, a platéia corre para o abraço a Fernando Noy: “Queremos ele!” A confusão se instala, o show é interrompido, Noy é retirado de cena e o público, de pé, divide-se entre apupos e aplausos. Corre-corre nos bastidores, o produtor Sílvio Palmeira tenta resolver. No final deu tudo certo e o show continuou. “Enquanto eu corria, assim eu ia / lhe chamar, enquanto corria a barca / lhe chamar...”

Foto Rafael Saar

FERNANDO NOY – Ah, os Novos Baianos... juro que, quando assisti o show deles na Concha Acústica, não quis fazer nada mais do que celebrar sua música maravilhosa... e quando Baby Consuelo cantou “A menina dança” e fechou seus olhinhos, diretamente desbundei. Nem sei como caí naquele lago que separava o público do palco, mas em seguida me trancaram num pequeno camarim na parte traseira, onde estavam todos eles, que haviam parado o show quando o público pediu que eu continuasse dançando, já que em um momento a divina Baby Consuelo reclamou a atenção sentenciando: “Ou ela ou eu!” O público pediu por ela, ou seja, eu, que naqueles tempos parecia e me chamavam Barbarella... a Jane Fonda havia recentemente estreiado o filme com esse nome... no camarim, apareceu Guilherme Araújo, que estava produzindo o primeiro LP naquele preciso instante, e me pediu que voltasse a dançar no palco... Ali, Moraes Moreira e os músicos tocaram uma música e entrei de novo, depois de tragar uma malzebier em um segundo... Então vi, desde o palco da Concha, que grande parte do público, que estava se indo, regressava para que a festa continuasse. E assim foi... No dia seguinte, na capa do jornal A Tarde estava escrito: "Hippie faz maior sucesso que os Novos Baianos..." Depois, segui admirando-os, até hoje os venero, mas juro de novo que jamais quis montar nenhum eclipse nem nada disso... só celebrar a maravilha desses artistas. E agora mesmo envio um beijão a Baby Consuelo, preciosa, cheia de swing... te quiero desde y para siempre, Baby... e vivam os Novos Baianos!!!!!!!!

Nas arquibancadas da Concha - foto acervo Lambe Lambe


Livia Serafim – Lembro desse fato! Eu estava lá, também! A formosa dançarina estava em todas! Era ótima, dançava deslumbrantemente com a poça d'água. Trabalhamos juntas em Mobilização, lindo espetáculo de dança com direção de Lia Robatto, com 100 bailarinos e atores, que reinaugurou o Teatro Castro Alves depois de uma grande reforma. Fernando Noy, se chama. É meu amigo ainda hoje. Ator, na Argentina. Adoooooro! Cheia de flores na cabeça! Uma Diva! Muito bom relembrar isso!!! Kkk, valeu!

BABY DO BRASIL – Fizemos grandes shows ali! E foi ali também que amamentei, entre uma música e outra, alguns filhos. E essa é uma recordação muito linda para mim! (Correio da Bahia – reportagem em 7/5/2016).

PAULINHO BOCA DE CANTOR – Nossos shows na Concha, principalmente nos verões, eram sagrados. Em 1976, aproveitamos e levamos aquele equipamento para um trio elétrico. Aquilo mudou o carnaval baiano, porque antes, nos trios, tocavam apenas bandas instrumentais. (...) Todos os artistas adoram tocar ali, porque tem uma energia diferente. Uma vez vi João Gilberto, num show na Concha, dizer “ah, isso aqui tá tão bom que, se eu pudesse, montava uma cabaninha e vinha morar aqui.” (Correio da Bahia – reportagem em 7/5/2016).

Novos Baianos no verão de 1976, no sitio Cochabamba, próximo do aeroporto 2 de Julho (foto Zeca)


Luiz Galvão – Baby chegou nos Novos Baianos como atriz. Particionou de um filme com Giuliano Gemma e no Show "Desembarque dos Bichos" recitou um texto. Só soubemos que ela cantava no Rio de janeiro e ela apareceu no Chacrinha depois do LP "Ferro na Boneca", onde ela cantava "Curto de véu e grinalda". Essa é a verdadeira história da grande cantora e superstar que é hoje, com a voz cada vez melhor e toda a energia que Deus lhe deu.

MORAES MOREIRA – Nos anos 70, a família Novos Baianos criava seus próprios códigos, inventava suas palavras, uma espécie de comunicação necessária, naqueles tempos da linha dura. Tínhamos fé nas nossas instituições, poderíamos nos tornar invisíveis para a polícia, virando tôco e virando moita, por exemplo. As letras das músicas driblavam os censores, que não sabiam do que falávamos. Eles achavam que éramos apenas uns doidões, jamais comunistas, por isso mesmo nos pegavam só para averiguação. Enquanto isso, a gente fazia a nossa revolução.

Anos Setenta Bahia – Ícone dos loucos anos 70, Fernando Noy merece uma cadeira de ogã no palco dos Novos Baianos!

Fernando Noy – Querido Sérgio Siqueira, podes crer que amanhã estarei no astral da noite especialmente grato a estas recordações que serão parte do meu próximo livro. Gracias, querido Sergio Siqueira... Anos Setenta Bahia... pela lembrança. Axé ao fênix da Concha Acústica. Meus primeiros aplausos para os Novos Baianos e um abraço a Rose Lima e todos os diretores anteriores à sua gestão no sempre lembrado TCA. Beijões tropicais a cada um dos que estarão ali. Amor é pouco nesta festa grande... Preta, preta, pretinha... Preta, preta, pretinha... ayayahhhh !!!!

Silvio Palmeira – Olá, Sérgio, gostaria que fosse corrigida uma parte do texto: o produtor que realizou esse show não foi Guilherme Araújo, e sim, eu, Silvio Palmeira. O corre-corre nas coxias foi comigo, tentando tirar e preservar o Fernando Noy, pois, como você falou, a Baby estava ensandecida, assim como todos os outros NB. Como agente dos Novos Baianos era o saudoso Marinaldo Guimarães. E também corrigir que Guilherme Araújo nunca produziu discos dos NB, o primeiro foi produzido por João Araújo (pai de Cazuza), que nunca produziu shows dos NB na Bahia. Essa show que Paulinho Boca reporta também foi produzido por mim na época da reinauguração da Concha.

Anos Setenta Bahia – Valeu, Silvio Palmeira. A correção será feita no texto e está feita neste seu depoimento, que, no espírito participativo do livro Anos 70 Bahia, será incorporado.

Silvio Palmeira – Grato, terá muito mais informações relevantes sobre shows na Concha, no Teatro Vila Velha, no ICBA, carnavais, trios elétricos e show com Moraes Moreira em frente ao Elevador Lacerda, show com Armandinho e o Trio Elétrico Dodô e Osmar na Praça Castro Alves, digo shows em palco.

Anos Setenta Bahia – Suas elucidações e contribuições são mais do que bem-vindas, caro Silvio Palmeira.

André Macêdo – Grande Silvio, você também produziu nessa época o Frevoque, grande show de frevo e rock na Concha, com Dodô e Osmar e Mar Revolto.

Fernando Noy – Ainda sem compreender que o erro não foi meu!!!! Além disso, eu sempre vesti exoticamente naqueles tempos e agora. Seu jeito de me lembrar é altamente discriminatorio. Eu estava fascinado e feliz curtindo essa música maravilhosa até "A menina dança", depois do que Baby inesperadamente furiosa perguntou ao público: "Ou ela ou eu"... Só que a plateia toda respondeu "Ela"... Ninguém me agrediu, ao contrário. Só os PM que vieram me pegar e eu, fugindo deles, entrei no espelho de água. Igualmente, a polícia me levou até o camarim atrás do palco, onde vi várias pessoas querendo achar uma solução, pois o público estava furioso e, o pior, indo embora. Eu ainda não falava nem um pouco de vosso idioma. Havia chegado apenas alguns dias antes a Salvador. No fim de contas, o que eu fiz de mau? Rebolar adorando o fabuloso ritmo? Isso é pecado? Jamais teria feito aquilo para eclipsar semelhantes artistas que sigo sempre admirando. E mais, o público não teria se solidarizado comigo, se fosse assim. Depois, no corre-corre vi vários homens que, gentilmente, me protegeram nesse momento. Um deles era um tal Araújo, se não foi Guilherme, tá certo, então foi João. Só Baby e ninguém mais estava "ensandecida", como voce escreveu. Ao contrário, eles mesmos e talvez também você me pediram que eu voltasse com "Música de carnaval" para o cenário e foi o que eu fiz. Um Araújo falou comigo com muito respeito, por isso aceitei sair a dançar para que o show continuasse e o público se acalmasse, pois muitos já estavam indo embora, ao grito de "fascistas, fascistas". Você cuidou de mim? Obrigado. Eu teria feito o mesmo pelo senhor. Repito: O erro não foi meu. Eu lhe agradecerei sempre que vocâ acabou por esclarecer o assunto dos discos etc. Justo agora, que estou fechando um livro sobre aqueles tempos na Bahia sempre amada.... Obrigado pelas dicas, sr. Produtor SP. E aquele abrazo!

Anos Setenta Bahia – Grande Fernando Noy, você é o espetáculo e acrescentou arte, irreverência e anarquia aos anos 70 na Bahia – aguardo novas grandes histórias e no seu livro estamos juntos.

Fernando Noy – Chorar de alegria... poder esta noite descansar feliz. Obrigado Anos Setenta Bahia. Axeee: Mi corazon sempre está alii!!!!


Um comentário:

  1. eu estava nesse show. foi um ano de muitos shows massa em Salvador. na Concha teve made In Brasil com Cornelius no vocal. O Terço. O Mutantes sem a Rita mas ainda com Arnaldo que não voltou para o bis pq apagou. no Teatro Castro Alves teve Rita Lee e o Tutti Frutti com o grande guitarrista Luis Carlini de quem hoje em SP sou amigo do filho dele, outro guitarrista massa, o Roy Carlini.

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