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| Berlinque 77 - acervo Nelson Cadena |
Anos 70 Bahia – Episódio 3
My Friend formou uma
comunidade em Berlinque, na Ilha de Itaparica, frequentada por mochileiros e
outsiders das mais diversas partes do planeta, num tempo em que a Bahia era
roteiro. Reza a história que ele tem muitos filhos espalhados mundo afora, as
mulheres se chegavam muito a ele. A jornalista Vera Martins conta que, certa
manhã, passeava pela praia, em Berlinque, e lhe chamou a atenção uma jovem
muito bonita, corpo de modelo, que tomava banho no lado descoberto da casa,
completamente nua. Logo apareceu o dono da cabana: ele, My Friend. Berlinque
era um lugar especial, a nudez era natural na praia e nos banhos de rio, em
especial entre os estrangeiros.
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| Ele, My Friend (Photobahia - Luciano Andrade) |
Sergio Siqueira –
O jornalista, publicitário e memorialista Nelson Cadena esteve por lá e contou
algumas dessas
experiências em livro. A história relata que My Friend era um pescador de
Valença que montou praça em Berlinque, recebendo os hippies e quem mais chegasse,
formando uma colônia de cerca de 10 casas de pau a pique. A maioria dos hóspedes
era de estrangeiros e a colônia acabou em 1980, para dar lugar a um loteamento,
expulsando essa figura ímpar dos anos 70.
LÍGIA AGUIAR – Berlinque
era o nosso paraíso. Todo fim de semana estávamos lá, onde muitos amigos tinham
casa: Bonfim, Pastori, Vadoca, Humbertinho. Nenhuma delas tinha banheiro, e o
banho doce era no Sonrisal, o rio tinha esse nome porque, de tão gelado,
acabava com as bebedeiras (principalmente da cachaça nativa Dengosa) e ficava
no caminho que levava a Aratuba. Certa vez, passei as minhas férias lá e, nas
andanças pela praia, paramos na Ponta de My Friend. Muitos turistas, a maioria
nus, todos numa boa... O cômico dessa visita foi que tive de voltar correndo
para Salvador, rsssss, tinha os cabelos imensos e vol-taram cheios de piolhos,
kkkkk, mas retornei uma semana depois. Belas histórias passadas em Berlinque.
Irei contando aos poucos...
Antonio Jorge
Moura – Comecei minha
vida adulta na ilha de Itaparica, por Berlinque e Aratuba, nos anos 70, e
conheci My Friend. Na companhia de meu compadre Rêmulo Pastore, tio de Isabela Pastore, e de Lucia Oxum, ambos vizinhos de Roberto
Gaguinho. Além dos banhos de água doce no Sonrisal, fazíamos caminhadas
até Catu de Berlinque, no canal entre a ilha e o continente. Orlando e outros
nativos, como Zé Crente e a filharada dele, faziam parte do universo que
incluía a jornalista Aninha Umbigo de Ouro, e o pai dela, Seo Paulo. Dormíamos
numa esteira estendida no passeio da casa. No quarto, só para namorar!
Jose Jesus
Barreto –
Anos 70.
Antonio Pastori – Vocês são é sortudos, Antonio Jorge Moura e Jose Jesus Barreto... Mas eu acho que peguei uma pontinha
dessa ponta mágica da ilha também... E o corretor ortográfico teimando em
trocar para "sortidos"... Que sejam também (risos).s).
ANTONIO JORGE MOURA – Nessa época, Antonio Pastori, a estrada para Cacha Pregos era de chão, e os pisos de Berlinque e Aratuba eram extensão do piso da praia. Depois do banho de mar tinha o banho no Sonrisal, que ficava à esquerda no trajeto de Berlinque para Aratuba, pela estrada de Cacha Pregos. Esse rio desembocava no mar e a água no local do banho, embaixo da mata, era tão fria que curava qualquer cachaça. Por isso o rio era Sonrisal, né, José Jesus Barreto?
LUCIA CORREIA LIMA –
Quem não tomou banho nu na ilha não viveu as quebras de paradigmas dos anos 70.
Elsior Lapo
Coutinho – Berlinque, um dos paraisos da loucura de nossa época.
Vera Martins – Confirmo a história de My Friend e sua hóspede
exibindo o belo corpo, completamente nu, enquanto se banhava sob um chuveiro do
lado de fora da casa, colada à praia e à vista dos passantes. Nada a estranhar!
A cena estava em total harmonia com a Berlinque dos anos 70!
Sonia Regina
Caldas – Maravilha Berlinque, lugarejo
pequeno com a Igrejinha linda, cheia de conchas! Frequentamos muito a casa de
Rôminho, Rômulo Pastore e Oxum, Lúcia Cerqueira, a casa de Bonfim, Caetano e também
a de Mary e Humbertinho, meu Professor Humberto Rocha e da Escola de Belas
Artes. Em Berlinque era normal encontrarmos Vadoca, Roberto Gaguinho e Dira,
Lígia Aguiar, Nelson Cadena, Américo, Conceição Lacerda, Kity Canário, Ana e
Lula, Celinha Murieta, o velho Murieta, prefeito Gildásio e Isadora, Claude,
Yarinha e Tuna, Gorga, o velho Gorgônio e outros muito queridos! Nesse período
My Friend era uma lenda, sempre tinha uma novidade sobre ele! Vez em quando ele
aparecia passeando, já que a casa dele ficava um pouco afastada! Lembro das
mangas doces e deliciosas, dos banhos no Sonrisal sem falar no bar de Cicinho,
onde provei pela primeira vez cachaça e “príncipe maluco”, dado por Napinho, o
nosso amigo Napoleão! Íamos andando para o lugarejo vizinho tomar umas no bar
de Cicinho, muitas vezes voltávamos à noite caminhando e cantando! Belos tempos!
Não se falava em violência!
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| Foto Luciano Andrade |
JOSÉ COELHO – Vivi dois anos em Berlinque, exatamente nessa época. Hoje moro no Capão, exatamente por isso. Achei o "elo" perdido da minha existência.
Fatima Barretto – Eu curti
mais a faixa de Barra do Gil, Coroa, Conceição! Ainda em tempos sem
eletricidade! Em grupo, alugávamos casa para o ano inteiro! E fim de semana,
até com chuva, a gente ia!
VERA MARTINS – Confirmo a história de My Friend e sua hóspede exibindo o belo corpo, completamente nu, enquanto se banhava sob um chuveiro do lado de fora da casa, colada à praia e à vista dos passantes. Nada a estranhar! A cena estava em total harmonia com a Berlinque dos Anos 70!
LULA AFONSO – Viajei para lá certa feita, com uma galera formada num
repente: Sílvio Varjão e a namorada, Eulina, Gilson Rodrigues, uma irmã dos
Maciel e uma amiga dela. A fita cassete com Rastaman Vibration, recém-lançado, não
parava de rodar no player da Brasília verde onde nos espremíamos, três no banco
de trás e três no da frente, eu dirigindo e com dificuldade para passar marcha.
Atravessamos de ferry e chegamos à ilha no fim da tarde. Quando anoiteceu,
seguimos para Mar Grande em busca de aventuras. Rodamos pelos bares, bebemos
todas e, já tarde, subimos uma colina por uma estradinha de barro até um circo
mambembe armado no alto, para ver os reflexos da lua sobre a baía. Lá chegando,
uma força estranha nos tirou do carro. Sempre ao som de Marley, recebemos um
cabôco alto-astral e todos dançamos – em grupo, mas cada um fazendo sua dança
pessoal – sob a lua quase cheia, e com todo aquele barulho as luzes do circo
não se acenderam, nem precisava. Ao amanhecer estávamos em Berlinque, onde, ao
meu lado no balcão de um bar, havia um homem bebendo cerveja que, quando dei
uma saída para mijar, alguém me disse ser My Friend, ele próprio. De calção e
sem camisa, tipo nativo, magro, cabelos anelados, um olhar bom, tranquilo.
Aceitou com um breve sorriso quando lhe enchi o copo de cerveja, ficou lá na
dele, recostado no balcão, conversando com o cara do bar. Em certo momento, Eulina
correu para a praia, tirou toda a roupa e se jogou no mar. Ao fazer o mesmo em
outras praias por onde fomos passando e parando, houve confusão com pescadores embriagados
que reagiam ante tanta loucura junta. Na tranquilidade do riacho Sonrisal, mais
uma vez nos desnudamos e curtíamos o frescor da água, quando surgiu do nada um
time de futebol, um bando de homens agitados e suados que, vendo a cena, também
tiraram os calções, se jogaram e não tiravam os olhos das meninas enquanto
faziam algazarra e tentavam se aproximar. Em sincronia surda e tranquila fomos
saindo da área, com leveza. Não nos assediaram. Vestimos as roupas,
reembarcamos na Brasília e seguimos a viagem pelos rincões da Ilha.
Joildo Goes –
Era a salvação nossa da polícia e da sociedade! Curti muito nesse lugar. Deus
que o preserve!
Juscelino Benevides –
Ali na barraca fazia as viagens de cogumelos alucinógenos pegados nos pastos de
Nazaré das Farinhas, e via até Cristo ser ressuscitado... kkkkkkkkk, bons
tempos!
Dominic Smith –
Quem sabe alguma info do God? Tinha uma bela pousada em Mar Grande, figura alta
e magra, com voz super grossa, gente boníssima!
Barbara Hubert –
O God é meu amigo no Face, mora ainda em Mar Grande, com pousada e restaurante
no mesmo lugar.





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ResponderExcluirMorei em Berlinque entre 1973 e 1978. De início na ponta de My Friend, numa cabana de praia que eu mesmo construí com a ajuda de um nativo: era redonda, de pau, suspensa para que a água do mar passasse por baixo, nas enchentes da maré de março e outras de vento sul. Comer era um desafio. No verão tinha alguma fartura de peixe, camarão, pitú, guaiamu durante as andanças de janeiro e fevereiro e tartarugas.
ResponderExcluirFui um dos maiores predadores de tartarugas da ilha, devo ter matado mais de 30. Comia a carne e os ovos. E o vergalho, seco ao sol e cozido e após misturado com óleo, o engarrafava em pequenos recipientes para ser vendido às mulheres na praia como afrodisíaco. O casco vendia barato, trocava por três bisnagas de pão, pois o processo de tratamento para tirar o cheiro e secar era complicado e demorado. Comíamos também teiús e outras iguanas e entre as frutas silvestres, o bacupari
Duro era no inverno. Nos dias de fome derrubávamos um coqueiro para comer o palmito com farinha e muitas vezes o nosso almoço foi apenas farinha umedecida na água, ou, café com farinha. Feijoada era raridade. Temperávamos o feijão com a carne do sariguê que caçávamos no mato e, quando não tinha tempero, com um copinho de cachaça. Aprendi a receita com um nativo. Um dia apareceu um porco no pedaço, o matamos a pauladas com ajuda dos cachorros e comemos feijão durante um mês.
Pela ponta de My Friend passaram centenas de hippies estrangeiros e muitos baianos que frequentavam o espaço no fim de semana. Gostávamos dessas visitas. Vinham muitas mulheres, namorávamos, e elas traziam comida, fumo e ácido. As noites da ponta de My Friend eram delirantes, em especial durante a lua cheia e nas overdoses de chã de cogumelos que trazíamos de Nazaré das Farinhas. Delirantes também eram as noites em que bebíamos datura “a erva do Diabo” de Castanheira, na ilha chamada de Copo de Leite.
My Friend vivia com dois filhos adotivos, Jorge e Jorginho. Jorge se drogava e bebia muito e numa dessas bebedeiras, deprimido, se pendurou numa viga, amarrando um lençol no pescoço. Outra morte que nos entristeceu foi a de Dedeco Gantois que frequentava o espaço nos fins de semana e ficamos sabendo que deu um tiro na cabeça, em Salvador. Também ficamos sabendo da morte de John um americano que andou por Berlinque, povoado de Veracruz. Se enforcou em Porto Seguro.
Dois de meus cinco anos de vivências em Berlinque residi na ponta de My Friend. Um dia botaram fogo na minha casa. Segundo me contaram foi uma paulista em um transe de LSD. Quem me contou foi o próprio My Friend que assistiu a tudo como único testemunha. Recentemente sonhei com ele me dizendo: “Nelson, me perdoe, fui eu que botei fogo na sua casa”. Acordei sobressaltado. Era um sonho, mas fazia muito mais sentido do que a história que me contaram e na qual sempre acreditei. My Friend sempre desejou ficar só na ponta, não queria que ninguém fixasse residência no local, não se cansava de repetir.
Sem casa, me mudei da Ponta para Berlinque e montei um bar com 30 reais da venda de três cordas de guiamu que peguei na praia e um tanto de ovos de tartaruga com o que fiz bolinhos e vendi como tira-gosto. Começou a minha vida de dono de barraca, o chamado Bar do Nelson. Me apaixonei por uma nativa, Helena. Mas não me dava de jeito nenhum. Um dia me desafiou: se me pegar, sou sua. Subiu numa árvore enorme. Não consegui alcançá-la e quando desceu me provocou: “Você não é capaz”. Por causa disso aprendi a subir nos dendezeiros, depois de muitas tentativas e pequenos acidentes. As besteiras que um homem faz por uma mulher.
Só imaginando de como esse tempo deveria ter sido bom kkkk
ResponderExcluirEu Amauri Tamos nativo de Cacha Pregos aos meus 14 anos frequentei a ponta de My Free grande personalidade, lembro bem quando chegava seus hóspedes de fora ele frequentava sempre o armazém de Sr Manezinho p fazer aquele rancho eu ia correndo até lá p levar as compras pela praia para ganhar aquele trocado chegando lá via todos nus achava estranho entregava e retornava correndo lembranças boas
ResponderExcluirmuito bom.
ResponderExcluirTempo bom
ResponderExcluirVoltei no tempo agora!!! Muito emocionado até, pois na primeira foto da matéria estou e minha esposa aí fundo em pé. Eu e ela fomos as lágrimas!!!
ResponderExcluirEu Kátia Moema com meu esposo fomos as lágrimas de emoção,estamos na primeira foto em pé,ganhei uma jaqueta branca pintada por My Friend,eu tinha fujido de casa com meu esposo,de Ilhéus pra Salvador, mas meu pai foi atrás e nós casou ,passamos Natal e Ano Novo lá,tempos bons ,figura incrível My Friend,muitas lembranças maravilhosas...
ResponderExcluirNos fins de semana eu e meu esposo íamos para ilha passear,geralmente era sábado.a noite e domingo o dia e nessas vezes íamos para ponta de my frendi.tinha muita maconha na época e todos dividiam tudo .a nudez era natural nos jovens .a contra cultura predominava é viver sem nada era moda .quem queria privacidade alugava as cabanas de palha para dormir .havia os que ficavam na areia ou embaixo das árvores. Podia-se armar barracas em qualquer lugar .quem tinha dinheiro dava algum a my frendi ou maconha ,quem nao tinha ficava a vontade era tudo muito aceitável e as crianças brincavam no local e livres quando a mare enchia trazia velas e madeira .fazíamos fogueiras e acendiam as velas .sem luz e sem água .era simples viver ali
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