quinta-feira, 26 de maio de 2016

JANIS JOPLIN APRONTA TODAS NA BAHIA

Entre os amigos Lula (de lado) Marcelo (sentado) e Piti, Janis demonstrava estar à vontade na Salvador dos anos 70. Foto arquivo pessoal Lula Martins.

Anos 70 Bahia – Episódio 4

Janis Joplin esteve em passeio pela Bahia em março de 1970, ciceroneada pelo artista plástico Lula Martins, conforme matéria do Correio da Bahia. Ela veio com o namorado David e ficou hospedada na casa de Lula, no Rio Vermelho. Como não falava bem inglês, ele chamou Judy Spencer, filha de Nilda, para ajudar a recebê-los. E relata: "Janis tinha uma energia incrível. Ela ficou deslumbrada com aquele grupo naif. Éramos como os primos mais jovens dela". Lula conta mais: Janis visitou o Mercado Modelo, tomou banho de mar de topless, entornou muita pinga e tequila, e, como era comum na época, LSD e marijuana. Certa noite, passando pelas imediações do Anjo Azul, ouviu uma música que tocava num bordel, entrou, se entusiasmou e cantou "Summertime", para deleite geral. Depois de algumas confusões e brigas no Hotel da Bahia, se tocou para Arempebe, onde passou uns dias.

RAFAEL SESSENTA – Nessa ida a Arembepe, Janis pintou lá em casa – e eu descansando das noites do Soixante. Está registrado no meu livro “Memórias de um Homem na Cozinha”.

Janis em Arembepe

MARCO ANTONIO QUEIROZ – Piti (é ele mesmo) namorava com Cristina Perco. No verão de 73 estávamos sempre juntos depois dos shows do Vila, ao qual íamos todos os dias. Uma noite de sábado, depois do show dos Secos e Molhados, na Concha, fomos para a Galeria 13, que ficava no Pelô. Conosco, Marcos Paulo, ator, e Márcia Mendes, apresentadora do jornal Hoje. Dos cinco à mesa, resto eu vivo. No dia seguinte, fomos à praia da rua K, em Itapuã. Os cinco (no meu fusca) e mais os três Secos e Molhados, o produtor local e uma gata lourinha. Ney Matogrosso mal conversou conosco. Afastou-se, agarrado com a loura no mar calmo de Itapuã. Se não rolou, chegou muito perto.

Janis no Rio Vermelho. Foto: arquivo pessoal de Lula Martins

FERNANDO NOY – Janis foi para a Casa do Sol, que ficava a cem metros depois da Aldeia de Arembepe, ocupada certa feita pelos deuses Stones Mick e Keith. Eu não vi a Janis, senão em trips (outro dia eu conto). A Casa do Sol ficou abandonada e era hotel dos hippies babilônicos de todo o mundo... entre os quais eu me contava. Ali morei com Manu, Erasmo, Tony Maravilha e outros personagens inesqueciveis... Manu, extraordinário desenhista, fez vestuários para tantos artistas, especialmente para os Doces Bárbaros. Cada roupa ou acessório dele era uma joia sublime, realizada com búzios, plumas, tudo natural e um pano de sacas de farinha que ele tratava até deixar como seda... Na casa do Sol, entre os milhões de grafittis estava o nome de Janis escrito en rouge, uma especie de assinatura que bem poderia ter sido brincadeira – autógrafo dela. Que bom matar tanta saudade e lembrar a querida Judy, filha dessa mega-deusa Nilda Spencer. Naquela aldeia paradisíaca também moravam Ramiro Bernabó, Zé Agrippino de Paula e Maria Esther Stockler, que dançava nua no rio, quente e dourado que jamais vi, e se abraçava com o mar... numa espécie de marca mágica, o alfa onde Oxum e Iemanjá se davam aquele abraço sagrado das águas... Ora iê iê ô... Odoiá!!!

Janis em Arembepe

JOSE JESUS BARRETO – Beleza de lembranças! topei com ela, Janis, naquele verão, na rua Chile (no alto do elevador Lacerda), passeando... com seus cabelos ruivos soltos, imensos, encaracolados, esvoaçantes.

Angela Machado – Fez-me voltar na direção do sol nascente... Cristina Perco, Piti, Arembepe, Janis, Red River, atenção para o refrão, tudo é divino (ou foi?) maravilhoso...

SÉRGIO SIQUEIRA – Luis Henrique Franco Timóteo fala que encontrou Janis na casa de Miguel Huertas Melgar, o Miguelito, um uruguaio radicado na Bahia desde os anos 60 e que morava na casa número 7 do Largo do Pelourinho: “Era de noite e tinha um cara na excêntrica sala de Miguel, debaixo de um abajur, molhando rosas numa taça de champanhe e comendo. Aí, o Raul me falou que ele estava viajando, se não me engano era holandês”.

Janis na praia da Paciência (foto Edgar Carmelo)

Paulo Roberto Ferreira – Lula Martins, eu vi vocês nessa época, tomando batida de maracujá no bar do Oceania, por isso copiei essas lindas fotos, pois ainda sou apaixonado pela Janis.

Beto Marques – Um dia, passando no estúdio de Gilson Rodrigues, ele me disse: “a Janis Joplin acabou de sair daqui!” Por pouco não dei de cara com a maior cantora da época.

Marize Monteiro Alves de Queiroz – Uma época linda, vibrante, cheia de energia jovem e de descobertas! Sinto saudades e fico emocionada com as lembranças. Cristina Perco se foi muito cedo... Não tanto quanto a Janis.


Janis em Arembepe


HAROLDO CAJAZEIRA ALVES – No começo da década de 70, Salvador, rua Carlos Gomes, vi Janis Joplin, acompanhada de um cara alto e forte. Imediatamente, comecei a segui-la, aproveitando a ocasião para utilizar a estratégia aprendida em filmes de detetive. O casal foi para a rua da Montanha e entrou em um puteiro tradicional da cidade, Maria da Vovó. Também entrei e, em uma mesa próxima, fiquei bebendo cerveja e escutando sua conversa. Ela bebia mais do que falava. Tive um desejo imenso de ir conversar com Joplin, mas não encontrei coragem. Na terceira cerveja, resolvi voltar para casa. No meu quarto, coloquei o primeiro disco da moça para tocar, aquele com os desenhos de Robert Crumb na capa, e escutando sua voz compreendi que não era seu corpo que me fascinava e sim o som que saia de sua garganta.

BETO HOISEL – Suica, o pescador [de Arembepe] por quem Janis Joplin se apaixonou (...). Para ele, era só uma gringa cercada por um bando de puxa-sacos. Vivia cheia de birita e só queria trepar com ele. Tudo bem, ela não era tão feia e essa de transar com gringos e gringas estava virando uma tradição entre os nativos; não havia por que fazer feio. Mas na hora em que a gringa quis levar Suica com ela, o caldo entornou. “De jeito nenhum, tá doida?” E ainda por cima, ela nem era tão boa de cama assim... ("Naquele tempo em Arembepe", pg. 77).

FOTOS do arquivo pessoal de Lula Martins: na primeira delas, entre os amigos Lula (de lado) Marcelo (sentado) e o músico Piti.

NOTA: Na manhã de 18/maio/2016, o Facebook censurou duas fotos de Lula Martins que compunham este episódio, tirando a página do ar por cerca de uma hora e forçando a exclusão. Nelas, Janis aparecia de topless, na mais perfeita naturalidade.


6 comentários:

  1. Eu estava lá,vivendo isso,essa maravilhosa 'doidêra',sim,e com muito orgulho!Aliás,não apenas em Arembépe,na "Casa do sol Nascente",mais o Juca,Prêto ( primeiríssima paixão,dela,dentre outras,antes do Hélio Vãs -que foi motivo da sua mais avassaladora paixão e ciúme até diante da mulher dêle.Se atracaram furiosas,no Mercado Popular,separadas por mim e a querida Nilda Spencer,em périplo noturno fantástico,'Bahia by Nigth'... Ela,querida,querida,querida,queridíssima 'Alice no pais tropical bahiano' mais à vontade do que nunca esteve em lugar nenhum.Narrou-me,depois. Saudades... Deve estar num canto do céu onde tem muita praia e Música,lembrando da Bahia e dos seus muitos amigos,sem a menor dúvida. A sua morte me entristeceu muitíssimo.Mas,vez por outra me vem à lembrança a sua presença ,horas, leve,hora rascante,na nossa Bahia e como sempre viveu em todo lugar... "Bêjo,Jân!..."... Parabéns por essa belíssima iniciativa.P.S.- A 'Casa' ficou 'largada' depois de um triste episódio,que contarei ao depois,se for o caso... E,o "Sêo Bráia" ( como lhe chamava o Prêto...),dos Stones,foi o seu morador-convidado,mais interativo com toda a população Arembepeira. Mas,isso é conversa 'pra mais de metro e com um bom café com boa prosa',pra outra hora...

    ResponderExcluir
  2. No livro Janis Joplin por ela mesma ela fala de sua vinda ao Brasil ( rio-ba) quando tinha começado um tratamento para se livrar do vício da heroína: " eu queria ir a um lugar longe , onde tivesse sol e eu pudesse me esquecer de tudo. Porque foi uma barra muito pesada. Eu só era uma garota que cantava com um bando de amigos. E de repente virei...sei lá...uma estrela cheia de responsabilidades, tendo de selecionar músicos, fazer arranjos essas coisas. Acho que não sei ser uma grande artista. Só sei curtir. Mas eu nem consegui descansar no Brasil. Eu ficava na praia só pensando música, em arranjos, com a cabeça cheia disso. Desconfio que não dá pra deixar de pensar em música . Ela jarra dentro de mim"

    ResponderExcluir
  3. Gente, estou emocionada com esse Blog! Quantas histórias que estão vindo à tona!!! Parabéns!!! Continuem!!! Odara Axé!!!

    ResponderExcluir
  4. As fotos de topless são no Rio, praia da macumba.

    ResponderExcluir