Anos 70 Bahia – Episódio
20
O Instituto Cultural
Brasil-Alemanha (ICBA, hoje Instituto Goethe) era um reduto de pura arte, uma
referência na cultura da Bahia em pleno período da ditadura. Localizado em
ponto estratégico no Corredor da Vitória, firmou-se nos anos 70 como território
livre da dança, teatro, música, cinema. O bar fervilhava de gente interessante.
Dirigido com brilho e coração por Roland Schaffner, o ICBA era a casa do
Intercena, da Banda do Companheiro Mágico, da Jornada de Cinema, do Sexteto do
Beco e do Baiafro de Djalma Correia, aglutinando as tribos e gerando
acontecimentos participativos com total liberdade de expressão. Não havia
censura nesse espaço: por ser território com status estrangeiro, dava certa segurança.
A Jornada de Cinema, liderada por Guido Araújo, começou no ICBA. Também foram
criadas em seu território as cooperativas artísticas, núcleo de vídeo,
quadrinhos, formação de ator e música eletrônica. Certo dia a polícia cercou
esse templo do livre-pensar, mas não pôde entrar, a diplomacia venceu e a
repressão teve que recuar.
SUKI VB – Schaffnner conta
esse episódio em seu livro "Memoráveis paixões transculturais:
euroafroamerindia", uma espécie de memórias de sua trajetória. Se não
estou enganada foi durante a Jornada de Cinema da Bahia.
ROGÉRIO MENEZES – Eu que o
diga. Cala-te boca.
SÉRGIO SIQUEIRA – Em um
trecho do artigo intitulado “A Bahia, o ICBA, a Alemanha e nós soteropolitanos”
o jornalista Paulo Setúbal escreveu: “(...) Schaffner, usando de altruísmo, de
bom senso democrático e de muita coragem abriu e deixou abertas as portas do
ICBA para abrigar os baianos mais conscientes que queriam escapar do jugo dos
imbecis em gôndolas, sequiosos de nos impor o que deveríamos ver, ler, falar e
até pensar. Seus braços truculentos não alcançavam a entidade alemã, seus
coturnos sujos de sangue não podiam ali pisar. Invadir o ICBA seria invadir a
própria Alemanha. Então ali, naquele autêntico oásis democrático, podíamos ver
exposições e também expor sem amarras da censura em voga no país. Podíamos
desenhar, pintar, ver peças teatrais, atuar nelas, ler. E o fazíamos. Líamos,
conversávamos, sonhávamos, ríamos, vivíamos (...).
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| Roland Schaffner |
RITA VIEIRA – Jorge
Portugal não esquece esse momento vivido por ele e seus amigos. Schaffner e
Carmen foram muito importantes na formação cultural desses jovens!
FERNANDO NOY –
Schaffner-Carmen- Suki-Teresa-Conga... são tantos os nomes e momentos incríveis
vividos naquele jardim das estátuas pintadas de jeito tão surrealista. Uma
tarde Maria Bethânia me disse, como sempre adorável: "Estranho, você é um
argentino que os chauvinistas baianos adoram..." – e soltou a
gargalhada... Realmente, o ICBA é um templo na nossa memória mais amada...
axéeee... Estamos ahi!!!
SÉRGIO SIQUEIRA – Muitas
vezes a noite começava pelo ICBA, que sempre tinha atração, um bom filme, uma
boa música. Lembro do show de Jorge Alfredo lá, do show de Butuca, das
exposições de arte, enfim sempre coisa boa. Era também um ponto de encontro,
para conversar e saber das novidades. A gestão aberta de Schaffner fez a
diferença, aproveitando um tempo em que, apesar da ditadura, Salvador estava
acontecendo e a Bahia era o imaginário do mundo. Caetano e Gil voltavam do
exílio, Vinicius se estabelecia em Itapoan, os Novos Baianos brilhavam e
Moraes, ao colocar voz no trio elétrico, rescreveu o carnaval da Bahia. Tudo
passava por aqui, graças à revolução cultural-educacional que foi feita lá
atrás, pelo reitor da UFBA, Edgard Santos (a Tropicália e o Cinema Novo não
existiriam sem ele).
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| Grupo Intecena em ação: Suki Vilas Boas,Tereza Oliveira, Reginaldo, Daniel Flores, Raimundo Sodré, Rubens. Direção Carmen Paternostro |
Roberto Torres – É um exagero afirmar que a
Tropicália e o Cinema Novo não existiriam sem Edgard Santos. Quem criou o conceito
tropicalista foi o carioca Hélio Oiticica, com a exposição Tropicália, antes
dos cantores baianos desembarcarem no Rio de Janeiro; e o cinema novo (Glauber
e Roberto Pires) não receberam nenhum apoio de Edgad Santos para existir.
sergio
siqueira – Muita gente
fala isso – ao implantar as universidades de arte na Bahia, na década de 50, e
trazer para cá gente como Lina Bo Bardi, Martim Gonçalves e Smetack, entre
outros, Edgard Santos fez a base sólida para que a Bahia se tornasse o centro
cultural do Brasil – acho que, graças a isso, o cinema novo aconteceu e a Tropicália
também – é uma boa discussão. Hélio Oiticica tem grande importância
(parangolés) e o nome veio dessa expo, embora digam que Caetano, ao colocar o
nome na música, não sabia do nome dado à expo por Hélio. Em entrevista sobre a
Tropicalia, muita gente fala dessa base de Edgard – e Roberto Santana fala que
Caetano aglutinou tudo.
Roberto Torres – Aglutinou e/ou se apropriou!?
SÉRGIO
SIQUEIRA – Em
entrevista, Roberto Santana, produtor que apresentou Caetano a Gil e fez o
celebre show Nós por exemplo, no Vila
Velha, fala que Caetano, ao sair da Bahia e ir para São Paulo (levando Tom Zé),
já tinha uma visão do todo e juntou tudo isso num movimento. Vale também dizer que a Tropicália era um movimento que
buscava as massas. O mais Tropicalista de todos, aliás até hoje é Tom Zé. Não
acho que Caetano se apropriou de nada, ele fez a parte dele...
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| Show Após-Calipso. Foto: arquivo pessoal de Era Lacerda Encarnação |
Roberto Torres – A Tropicália iniciou-se não pela
música, mas pelas artes plásticas. A mídia aproveitou a música como paradigma
da Tropicália por ela ser mais comercializável e Caetano e Gil, orientados pelo
produtor Guilherme Araujo, embarcaram nessa. As pessoas falam sem saber. Não
pesquisam as fontes, a história, e ficam repetindo essa conversa que tudo
começou com Edgard Santos.
SÉRGIO
SIQUEIRA – A
Tropicália misturou tudo: além de arte, também foi comportamento. O nome também
acho que Oiticica colocou primeiro, não foi coincidência. A Tropicália é Hélio
Oiticica, Rogério Duarte, Caetano, Gil, Tom Zé , José Celso, Capinam, Mutantes,
Chacrinha. Edgard Santos, ao criar em 1950 (ato revolucionário) as universidades
e escolas de arte e trazer para a cidade da Bahia nomes como Lina Bo Bardi,
Smetack, Martim Gonçalves, Yanka Rudzka, Koelreuter, Agostinho dos Silva, criou
as condições necessárias para que o Cinema Novo, a Tropicália e outras coisas
mais acontecessem e a Bahia se tornasse, nos anos 60-70, o centro cultural do
Brasil – e também imaginário do mundo, circulando por aqui de Janis a Polanski.
Edgard Santos tem importância alta nisso tudo.
Roberto Torres – O Cinema Novo começou, na minha
opinião, com "A Grande Feira", de Roberto Pires, produzido pela Iglu
Filmes (firma criada por Roberto) e financiado por seu cunhado Hélio Lima.
Quando Glauber filmou "Deus e o Diabo", não precisou de apoio nenhum
de Edgar Santos e muito menos foi patrocinado pela Universidade. (...) Mais
responsável do que Edgard Santos pela criação da Tropicália e do Cinema Novo
foi o artista plástico, poeta, guru de Caetano e Gil, Rogério Duarte. Indico o
documentário de José Walter Lima "Rogério Duarte – Tropikaoslista",
que desvenda grande parte desses dilemas. Tanto em relação à origem da
Tropicália quanto ao Cinema Novo. Rogério foi grande amigo e cunhado de
Glauber, casado com Aneci, e suas ideias flamejantes influenciaram toda aquela
geração.
SÉRGIO
SIQUEIRA – Achamos
plausível e verdadeira a tese de que Edgard Santos plantou a semente para que a
Bahia se tornasse o centro cultural do Brasil e, nos anos 60/70, o imaginário
do mundo. Você há de convir que implantar pioneiramente no Brasil, na década de
50, as universidades e escolas de arte, trazendo as grandes cabeças contemporâneas
para cá, foi um ato revolucionário, e um ato revolucionário cultural
educacional não tem como não gerar boas sementes. Roberto Santana falou isso em
entrevista, Tuzé de Abreu também e Maria Moniz (“Hoje não vai ter sopa na
varanda de Maria” – dizeres de contracapa de um discos da Tropicália) também
citou Edgard Santos. Concluindo o pensamento, Edgard Santos criou todas as
condições, colocou todas as informações necessárias para que a Bahia fosse
vanguarda e assim foi. Voltando à Tropicália, o movimento misturou tudo e é
verdade que ele é muito mais que música, é comportamento e todas as artes, até
o hino do Senhor do Bonfim foi incorporado, Chacrinha também é a cara da
Tropicália. Viva Helio Oiticica, viva Rogério Duarte, Capinam, Caetano, Gil. A
Tropicália bebeu também no Cinema Novo (Terra em Transe) – viva Glauber!
Roberto Torres – No meu entender, isso é um
factoide. Não esqueçamos que Elomar foi expulso da escola de música por suas
ideias, pouco concebíveis na época. E não só ele, como também Tom Zé sofreu
represálias dos academicistas da Escola de Música. (...) Por conta dessa
amizade com Rogério Duarte, que chegou ao Rio de Janeiro antes de Caetano e
Gil, e era parceiro de Oiticica, não tinha como Caetano não saber da exposição
de Hélio Oiticica, que causou grande repercusão na Guanabara. Hélio Oiticica fez
o penetrável Tropicália, que não só inspirou o nome, mas também ajudou a
consolidar uma estética do movimento tropicalista na música brasileira.
Oiticica o chamava de "primeiríssima tentativa consciente de impor uma
imagem 'brasileira' ao contexto da vanguarda. Ficou famoso o seu Bólide em
homenagem ao bandido "Cara de Cavalo", seu amigo, com a frase
"Seja marginal, seja herói".
SÉRGIO
SIQUEIRA – Tem gente
que fala em coincidência, também acho que o nome partiu daí, de Hélio. Vamos
nessa, agradecemos o bom debate e essa página é para ouvir as histórias de quem
participou e esteve por perto. (...) Tem até uma história no livro de Mariza
Alvarez de Lima que fala que, numa festa na casa de Helio Oiticica, onde
estavam muitas celebridades, Cara de cavalo estaria escondido num dos quartos
da casa.
Roberto Torres – Falo isso por que fui genro de
Roberto Pires e amigo de Rogério Duarte, sobre quem escrevi o argumento, o
roteiro e fiz assistência de direção do documentário "O Tropikaoslista.
Acho que estive bem perto. (...) Lembremo-nos também de José Celso
Martinez Correia e o seu maravilhoso espetáculo O Rei da Vela, de 1967, pré-tropicalismo musical, mas já
tropicalista. Não esqueçamos, também, da revolucionária
artista plástica Lygia Pape e dos poetas concretistas como Décio Pignatari, que
em 1957 escreveu o poema Beba Coca-Cola.
No meu entender, é desses caras que vem a Tropicália, não de Edgard Santos. Por
fim, reconheço o valor de Edgard Santos, porém não o mitifico como um totém
cultural que tirou a Bahia das trevas da ignorância.
SÉRGIO
SIQUEIRA – Roberto Torres, Edgard
Santos plantou a semente necessária para que a Bahia se tornasse culturalmente
pulsante.
Roberto Torres – Por isso reconheço o valor que
ele teve nesse período.
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| Banda do Companheiro Mágico, última formação, show no Solar do Unhão 1976, com ambientação de Gilson Rodrigues. Com Toni Costa, Ary Dias e Beka, Guilherme Maia no baixo |
Anos Setenta
Bahia – Ainda
temos muitas histórias para contar.
Artur Carmel – Conheci o ICBA lá pelos idos de
77... E como bem disse Sérgio Siqueira, o local, além de todas suas atrações – gente
bacana, principalmente –, era por onde 'se começava a noite'. Sim, era ali onde
sabíamos das festas mais bacanas da cidade, e outros eventos. Depois, por muito
tempo, o cinema do ICBA também foi referência na cidade.
Roberto Torres – Agora, quanto ao ICBA, reconheço
o trabalho de Roland Schaffner. Além de tudo o que foi dito, foi ele quem deu
apoio ao grupo Sangue e Raça, formado por Roberto Mendes, Raimundo Sodré e
Beuza. Que tinha ainda Jorge Portugal como letrista. Assisti, em 1976,
"Recon-Sertão" o primeiro show do grupo, encenado no pátio do ICBA.
Octavio Americo – Em 1975 "moramos" lá...
rs.
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| Intercena: Suki VB, Tereza Oliveira, Afonso Correa, Conga, Sérgio Souto... |
Liliana Peixinho – Icba final dos anos 70 e anos 80, pra sempre, em nossas
vidas.
Virgínia Miranda – Vivia no icba... Lá serviam vinho em copos.... Adorava!!! Kkkkk... Lá
ouvia os LPs mais incríveis, fone no ouvido, qualidade do som incrível e intermináveis
discos do melhor jazz progressivo!!! Lá, as melhores montangens teatrais,
Brecht só lá! Fui assessora de imorensa do clube de cinema durante algum tempo,
o prazer de trabalhar com Guido, um batalhador a favor do curta metragem, lá
nos misturávamos todos.... uma farra cultural inesquecível, nunca vivi nada
igual!!! E tudo sob a direção de Schaffener(nem sei se é assim que se
escreve...) e seu território protegido dos duros tempos!!!
Margarita
Gaudenz – Um
grande agradecimento a Roland Schaffner
Isabela
Larangeira –
Caetano não conhecia a obra de Hélio Oiticica quando fez o disco-marco do
Tropicalismo e, segundo o cantor, quem sugeriu o nome da obra de Oiticica foi
Barretão. Oiticica foi consultado, conheceu o trabalho dos novatos, amou e
cedeu o nome. Caetano declarou que o elemento detonador de tudo, absolutamente
tudo, foi "Terra em Transe", de Glauber Rocha. Mas a melhor
explicação é a de Tom Zé, quando fala que a mistura do lixo do hipotálamo com o
córtex dos baianos foi tudo para o movimento.
Anos Setenta
Bahia – Uma
grande história, como é bom juntar os cacos e de muitos cacos tudo vai pintando.
Veruska Araponga – Nesse templo ia muito com meu
namorido Flexa (dançarino do Olodumaré). Dizem até que fui a primeira
"branca" a assumir de verdade um negro. Só que nunca tive esses
atrasos de vida, preto, branco, amarelo, gringo, nunca liguei. Se olhasse e
gostsse... só não curtia muito pobreza de espírito. Saudades do negão, lindo,
doce, corpo escultural – e como dançava e tocava timbau! "Vi tanta areia,
andei na lua cheia, eu sei, uma saudade imensa (primeira música que ele cantou
e tocou para mim na Micareta de Feira).
Miriam Braz Mirinha Braz – Outra figura da década de
setenta foi Mário Gusmão, "O anjo negro"... ele passava uma
tranquilidade para as pessoas. Um grande artista, que não foi reconhecido. Foi
preso e esquecido.
Antonio Jorge
Moura – Vivi
a efervescência do ICBA entre o final dos anos 60 e começo dos 70, período de
retomada do movimento estudantil no Central e quando quando ingressei na
Faculdade de Economia da Ufba. Só
me afastei do instituto depois de iniciar a trajetória jornalística, na Tribuna
da Bahia e depois no Jornal da Bahia!
Dóris Abreu – Frequentei muito o ICBA nos anos
60 e 70. Schaffner foi um cara fantástico, trouxe coisas maravilhosas e abrigou
no ICBA ‘n’ grupos e artistas em inicio de carreira. Fiz cursos, assisti a
shows fantásticos, peças teatrais de vanguarda, palestras fantásticas e exposições.
Guido Lima – Por incrível que pareça, a gente
estava em plena ditadura militar, mas foi o momento da mais alta criatividade
no campo artístico. O ICBA me deu a oportunidade de apresentar espetáculos
infantis junto com Deolindo Checcucci e muitas outras experiências com outros
artistas. Os festivais de Super 8, as exposições de artes plásticas, as bandas
e as reuniões espontâneas que aconteciam todas as noites, com dezenas de
artistas de todas as áreas, era o melhor de tudo. O Teatro Vila Velha e o ICBA foram
os grandes pontos de encontro e de grandes acontecimentos da arte baiana do
final dos anos 60 e dos anos 70 na Bahia e no Brasil. Depois disso veio a
decadência e o cansaço cultural. A arte e as pessoas envelheceram e nada de
novo surgiu, a televisão vem ditando as regras e a memória dos novos é muito
curta, não sabem de tudo que já foi experimentado e nem conhecem os
protagonistas dessa história. Fica aqui a minha homenagem para alguns
personagens dessa época: Nonato Freyre, Silvio Robatto, Lia Robatto, Silvio
Varjão. Deolindo Checcucci, Marquinho Rebu, Osmar Marron, Benvindo Sequeira,
Mario Gusmão, Sergio Souto, Maria Eugênia Millet, Paulo Barata, Tereza
Oliveira, João Delaguila e muitos outros que eram frequentadores e fizeram as
suas artes no ICBA.
Silvio Palmeira – Minha ligação com o ICBA foi no
inicio de 70: ia muito lá ver os filmes de Werner Herzog, Fritz Lang e Fassbinder,
entre outros, e adorava aquele clima, aquela cantina – e também morava ao lado,
no ed. Guilhermina, Campo Grande. O ICBA começava a dar força à cena local
de música, teatro, cinema. Em 73, ainda fazendo o vocal do Mar Revolto,
procurei dr. Roland Schaffner e pedi para fazer uns shows e ser abrigado no
ICBA, no que fui prontamente atendido – e iniciamos uma série de shows na casa.
Fiz o meu ultimo show com Mar Revolto lá, em seguida pudemos ensaiar, guardar
equipamentos, virou o nosso QG. Entre 73 e 75, primeiramente fizemos uma série
de shows no teatro, o público foi aumentando, aumentando ao ponto de uma
multidão quebrar as portas de vidro. Schaffner então gritou: "Estão
quebrando minha ICBA!" Nos relocou para o Jardim, a essa altura o ICBA já
não comportava mais os nossos shows, fizemos ainda umas três apresentações e
tivemos que nos mudar definitivamente para a Concha Acústica. Por lá tinha uma
turma boa, o iniciante João Américo na sonorização, na iluminação o Raul, um peruano,
eu acho, entre outros. Em 75 o ICBA foi invadido pela Policia Federal e ficou
um tempo fechado, e o grande mecenas Schaffner foi transferido acho que para
São Paulo, pondo um ponto final nas atividades culturais do ICBA. Vi também
muitos bons show lá com a Banda do Companheiro Mágico, Butuca, Volker Kriegel e
Mild Maniac Orchestra, um super grupo de jazz alemão, Era Encarnação, Cremes,
entre vários outros.
Tuninho Borges
Borges – Samba
Papelo, espetáculo de dança com Clyde Morgan e Mário Gusmão.
Cristina Sá – O ICBA era incrível, um grande centro
cultural de vanguarda! Lá fiz alguns cursos, como um de dança com Carla Leite,
delicioso! Assisti a muitos espetáculos marcantes e importantes na minha
formação cultural, nas mais diversas áreas – dança, música, teatro, artes
plásticas, exposições maravilhosas, palestras, encontros, seminários, além de
desfrutar do bar e do social com encontros de amigos! Realmente o ICBA marcou
minha vida! Deixou saudade!
Mario Peixoto – Quero acrescentar a este arquivo
do ICBA o espetáculo Revira e volta Travolta,
produzido por este que vos fala, em sociedade com Silvio Palmeira e Nonato
Freire. A montagem rock teatral foi realizada com o ator e cantor Nonato Freire
e o fantástico grupo de rock Mar Revolto. Saudades do ICBA, esse maravilhoso
espaço a serviço da cultura.
Milton Macêdo – Inesquecíveis anos 70, o ICBA
território "quase" livre da enigmática censura federal. Lá não havia
censura mas eu, Deolindo Checcucci, Nonato Freire e Sílvio Varjão preparamos
uma peça que seria encenada naquele teatro e, exatamente na estréia, todo mundo
no portão, aquela expectativa e de repente chega o censor proibindo a
apresentação, definitivamente censurada. Em compensação inauguramos, eu e você, Tereza Oliveira (protagonista e antagonista), aquele
palco com a peça infantil Julinho contra
a bruxa do espaço, de Deolindo Checucci, e logo a seguir, com direção de
João das Neves, foi montada Um homem é um
homem, de Bertolt Brecht.
Tereza
Oliveira –
Bons tempos. Mais histórias dos Anos Setenta Bahia. O ICBaA foi nossa primeira casa de
espetáculo para dança experimental. Lá montamos muitos espetáculos com o Intercena.
Depois das aulas e dos ensaios, era difícil ir para casa. Tinha sabor de quero
mais. De fique aqui. De aqui é um espaço sedutor. Desde as conversas com seu
Joel, o carpinteiro cênico local. Um talento especial e as especiarias servidas
no bar. Uma biblioteca com assuntos que naquele momento o sentido era de
curiosidade mas que, hoje, faz toda a diferença. Realmente Roland Schaffner.
Heloísa Andrade e Carmen Paternostro.
Guido Araújo – E todos os frequentadores deram sabor
estilo chef de cuisine àquele espaço.
Era Lacerda
Encarnação –
Sergio Siqueira, o show de Jorge Alfredo mencionado no texto
intitulava-se Salve o prazer. Era um
trabalho em grupo, composto por mim, Jorge Alfredo, Armandinho e Beto Macedo.
Esta era a base, com participações especialíssimas de Ary Dias,
Sérgio Souto, Jaime Sodré (se não me engano) e Alberto Som.
Anos Setenta
Bahia – Foi
um show maravilhoso, pulsação pura.
Era Lacerda
Encarnação –
Foi resultado de um trabalho quase que diário na casa de Armandinho
Macêdo, na Ribeira. Depois nos apresentamos com esse show na Feira
da Bahia, em São Paulo. Respirávamos música quando havia um movimento cultural
de alto nível em Salvador, e o admirável Roland Schaffner foi peça fundamental
nesse processo. Ave, Schaffner!!!








Tá cheio de polícia na porta
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