![]() |
| Um dos fundadores do Vila Velha, João Augusto dirigiu Mulheres de Tróia, em 1978. Foi a sua despedida do teatro. |
Esta louvação de Gilberto Gil faz justiça ao protagonismo histórico do
Teatro Vila Velha, que, nos anos de chumbo da década de 70, contrapôs à
repressão a efervescência da cultura baiana. O vigor criativo dos artistas da
terra (e dos chegantes) transformaram Salvador na capital multicultural do
país, firmando o Vila como um baluarte da resistência por meio da estética de
rompimento que marcou as linguagens artísticas da época.
Maria Bethânia completou Gil ao afirmar que “O teatro tem alma porque
foi construído por e para artistas baianos”. E a Folha de São Paulo (27 de
janeiro de 2014) foi em busca das origens: “Há um teatro na Bahia onde Caetano,
Gil, Bethânia e Gal Costa fizeram o antológico show ‘Nós por exemplo’, em 1964,
no começo das suas carreiras. Onde Othon Bastos despontou com ‘Eles não usam
black tie'. Onde os Novos Baianos estrearam. Assim como Lázaro Ramos."
![]() |
| O primeiro espetáculo apresentado no Vila foi Eles não usam black tie, de Gianfrancesco Guarnieri, em 1964. Othon Bastos é o primeiro a esquerda. |
ROGÉRIO MENEZES – João Augusto Azevedo: O mais belo dos belos, o mais
gênio dos gênios do teatro baiano dos anos 1970. No comando do Teatro Livre da
Bahia me conquistou o coração e a mente, e o que mais viesse. De uma
generosidade rara, de vez em quando perdia duas horas de seu tempo conversando
comigo num banquinho do Passeio Público, onde, com paciência franciscana, me
dava as minhas primeiras noções de teatro lá. pelos idos dos anos 1970. Eu
bebia cada palavra que ele me dizia e essas palavras que me dizia me nutrem
culturalmente até hoje. Eu aos quase vintanos, ainda florindo, ele na beleza
madura dos quase 50, totoalmente florido, me apaixonei por ele biblicamente
(mas, percebi que era um sonho impossível, e amarelei) e pelo teatro
espetacular, engajado e lúdico que dirigia - e continuo apaixonado por ele e
pelo teatro que fazia até hoje. Que deusnísio o tenha, meu querido.. Te amo,
João Augusto! Evoé, João Augusto!
![]() |
| João Augusto |
TEREZA OLIVEIRA – Realmente o mais belo dos belos. Como foi bom
trabalhar com ele. Grande experiência. Ainda jovem, pude estar em contato com
ele como coreógrafa, aprendiz, atriz . Quando começávamos a estreitar uma
amizade mais profunda, ele se foi... mas deixou para sempre seus ensinamentos.
Grande João Augusto. Guardo até hoje nos jornais a notícia da sua partida.
![]() |
| Em fevereiro de 79, Caetano faz show no Vila em prol da campanha da anistia – foto Raimundo Silva, ag. Globo |
Marco Antonio Queiroz – Era assim. Chegávamos no Vila Velha, no Teatro Castro Alves ou na Concha e começávamos a ocupar os espaços. Inclusive o palco, às vezes deixando estritamente a área necessária para o artista e sua banda trabalharem. A distância entre artista e público, na década de 70 era menor. E dali saíamos para as festas de largo, onde às vezes também nos sentávamos nas mesmas barracas ou até na mesma mesa. Havia toda uma convivência, uma identidade de interesses e de estilo de vida. O cantor/músico passou a ser inatingível na década seguinte, quando os espaços ficaram maiores e os palcos mais altos. Nos perdemos de vista. Assim, Gilberto Gil, quando visitou a UFBA esse ano, ao sair me abraçou e disse "gostei muito de lhe rever". Foi a lembrança de um tempo bom. Anos 70.
Anos Setenta
Bahia – Ótimo comentário – e pela foto a gente vê
como era – artista e plateia colados, tudo fluía com muita energia.
LULA AFONSO – Em 1974, dois anos depois do exílio em Londres, Caetano Veloso volta ao teatro Vila Velha, templo dionisíaco onde se iniciou a sua carreira. O show memorável, ao lado de Gilberto Gil e Gal Costa, gerou o álbum "Temporada de Verão". Na fila do gargarejo, o fotógrafo amador se esmerou na "puxada de ASA" na sua Nikon de segunda mão, para captar o vate em close com uma lente 200 mm. Do clique saiu uma imagem granulada que aureola um dos ícones dos anos setenta.
![]() |
| Foto Lula Afonso |
TEREZA OLIVEIRA – Fiz o trabalho de corpo desse espetáculo [Mulheres de Tróia]. Quanta honra. João Augusto era assim. Um cara que apostava nos profissionais jovens. Só tinha mulheres poderosas. Está no meu Lattes com muito orgulho.
GESSY GESSE – Era menção obrigatória, naqueles tempos de fervura cultural, o teatro Vila Velha, que viu Vinicius de Moraes sem Toquinho, em um show beneficente que dirigi, chamado “Vinicius sois entre as mulheres” (foi lindo). O objetivo era arrecadar dinheiro para custear a viagem dos artistas que participariam do festival de Nice, na França. O velho Vila era o palco privilegiado do Baile das Atrizes, cuja primeira edição se deu em 1969, ano em que conheci Vinicius. Foi seu criador o diretor teatral João Augusto, figura cultuada no meio e que não se encontra entre nós desde 1979. A proposta original era arrecadar dinheiro para a reforma do teatro e garantir recursos para a montagem de espetáculos.
GESSY GESSE – Era menção obrigatória, naqueles tempos de fervura cultural, o teatro Vila Velha, que viu Vinicius de Moraes sem Toquinho, em um show beneficente que dirigi, chamado “Vinicius sois entre as mulheres” (foi lindo). O objetivo era arrecadar dinheiro para custear a viagem dos artistas que participariam do festival de Nice, na França. O velho Vila era o palco privilegiado do Baile das Atrizes, cuja primeira edição se deu em 1969, ano em que conheci Vinicius. Foi seu criador o diretor teatral João Augusto, figura cultuada no meio e que não se encontra entre nós desde 1979. A proposta original era arrecadar dinheiro para a reforma do teatro e garantir recursos para a montagem de espetáculos.
Corriam os anos negros da ditadura e,
por estar o prédio localizado no Passeio Público, bem no fundo do Palácio do
Governo, os freqüentadores eram submetidos a constrangedoras revistas, o que
levou ao esvaziamento da plateia e ao cancelamento de espetáculos por parte de
produtores de outros estados. Organizar festas, assim, foi uma saída encontrada
pelo grupo Teatro dos Novos, que reunia nomes do quilate de Carlos Petrovitch,
Echio Reis, Sônia dos Humildes, Othon Bastos, Tereza Sá e Carmem Bittencourt.
Desde a primeira edição, o Baile das
Atrizes foi um sucesso total, contagiando a classe artística, formadores de
opinião, intelectuais, estudantes, profissionais liberais, produtores, turistas
e o que havia de mais atuante e expressivo nos meios culturais da Bahia. A
primeira rainha a ser coroada foi a inesquecível Nilda Spencer, em 1969. Em
1970 o cetro ficou com a atriz Helena Ignez e, em 1971, me foi conferido esse
privilégio de receber a coroa de Rainha das Atrizes, o que me deixou bastante
orgulhosa. Coroa que repassei para Gal Costa, no ano seguinte (Marina Montini
foi rainha em 1975), permanecendo elevado o grau de representatividade das contempladas
enquanto durou a carreira de sucesso do Baile. (“Minha vida com o poeta”, pg.
68).
![]() |
| Um mês e dez dias de shows sem interrupção. Entre 10 de janeiro e 20 de fevereiro de 1974, o verão de Salvador pega fogo com apresentações históricas de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Jorge Ben, Luiz Melodia e Jards Macalé. Correio da Bahia - (http:// |
A ORIGEM – “Em 1959, uma forte dissidência com o diretor da Escola de
Teatro, Martim Gonçalves, leva Sônia Robatto e um grupo de alunos a abandonarem
a escola, acompanhados do professor João Augusto Azevedo. (...) Sob a direção
de João Augusto, fundam o Teatro dos Novos, a primeira companhia profissional
de teatro de Salvador, que atualmente, ainda funciona e tem mais de 50 anos de
existência. (...) Faziam parte do Teatro dos Novos os atores Carlos Petrovich,
Carmem Bittencourt, Echio Reis, Thereza Sá, Othon Bastos, Sonia Robatto e o
diretor João Augusto Azevedo. A primeira sede do grupo foi na Graça, num
casarão desocupado, prestes a ser demolido. (...)
Com a ajuda do jornalista e poeta
Odorico Tavares, o grupo se muda para um pequeno prédio, onde tinha sido a
Galeria Oxumaré, no Passeio Público, pertencente à Radio Sociedade da Bahia. Ao
lado, mais tarde, seria construída a casa do grupo, o Teatro Vila Velha.
Com um projeto arquitetônico feito
por seu irmão, Silvio Robatto, Sônia e outros membros dos Novos pedem ao
governador Juracy Magalhães a doação, a título precário, de um terreno no
Passeio Público, atrás do Palácio da Aclamação, onde seria construída a sede do
Teatro dos Novos. A solicitação foi atendida. O grupo começou uma intensa
campanha para levantar fundos para a construção. O Governo do Estado e a
Prefeitura patrocinaram parte da obra. O restante foi levantado entre os amigos
do grupo, artistas e empresários. As doações chegavam em dinheiro ou em
material de construção. Alguns pintores, de muita expressão na Bahia, doaram
quadros para um leilão, em benefício da construção do Teatro. (...).
Finalmente, em 31 de Julho de 1964,
nasce o Teatro Vila Velha, depois de 5 anos de intenso trabalho e árdua
dedicação. Entre os espetáculos apresentados na inauguração do Vila, estava um
show antológico de Bossa Nova, de grandes amigos – Nós por exemplo.
Participavam do show Maria da Graça (nossa Gal Costa), Maria Bethania, Tom Zé,
Caetano Veloso, Fernando Lona. O primeiro espetáculo dos Novos montado no seu
teatro foi a peça de Gianfrancesco Guarnieri, “Eles não usam Black-tie”.
Estávamos em plena ditadura e o Teatro dos Novos sentia o peso da censura,
constante. O Teatro virou um ponto de resistência à ditadura. A vida ficou
perigosa para todos.!” (Sônia Robatto – Memorial Brasil de Artes Cências
– http://livrozilla.com/…/s%C3%B4nia-robatto---memorial-brasi…).
Octavio Americo –
Nosso "batismo" no Mar Revolto foi em 1973, com o show Nau Fantasma,
para um público viajandão.
Victor Lahiri –
Luisa Mesquita, acompanha as postagens aqui, muita história
bacana!
Sergio Siqueira –
João Augusto foi sempre um diretor não conformista em tempo que o marketing não
comandava a cultura. Me lembro do teatro de rua indo ao encontro do povo,
Bemvindo Sequeira estava lá e minha amiga Tereza Oliveira também. Eram as
raízes da Bahia na rua, o sertão, Lampião, o cordel. Neste trecho de uma
entrevista, João Augusto demonstra claramente sua alma de artista: "Estou
cansado de trabalhar no mesmo esquema para agradar ao público. Se a Bahia
pretende se tornar um Rio/São Paulo, eu não tenho nada com isso. Mas aqui eu
não trabalho mais. Vou trabalhar nos bairros e nas cidades do interior. Quando
eu vim para a Bahia, acreditava na descentralização do teatro, como meio de
cultura, mas como esquema está mudado, eu caio fora. Inicialmente nós vamos nos
apresentar no Vila, depois de realizar as apresentações nos bairros e nas
cidades do interior. Futuramente, não vamos nos dar ao luxo de precisar dessa
"Broadway".
Silvio Palmeira –
Em relação ao TVV, tive uma participação muito boa nas programações musicais
apartir de 1973, com o show "Nau Fantasma". A mais contundente foi na
Temporada de Verão de 79, fiz 75 shows em 60 dias: Jorge Mautner, Geraldo
Azevedo, Pepeu e Baby, Oswaldinho do Acordeon, Tarancon, Jards Macalé, Paulinho
Boca de Cantor, 14 Bis e Raimundo Fagner, entre outros. Eram shows às
seis-e-meia, às nove e meia-noite.
Anos Setenta
Bahia – Impressionante a dinâmica – 3 shows às
vezes num única dia, em três sessões – a sessão da meia-noite era um
acontecimento.
Silvio Palmeira –
Por favor, quem tiver qualquer registro desses shows, tipo fotos, folhetos,
cartazes, disponibilizem.
Geraldo Dias –
Morava perto do Teatro e bebi na fonte cultural do Vila Velha!







Nenhum comentário:
Postar um comentário