quinta-feira, 16 de junho de 2016

ALDEIA HIPPIE: TODA NUDEZ SERÁ EXALTADA

Nei Matogrosso em arembepe - 1974 - foto compartilhada de Cristiano Costa

Anos 70 Bahia – Episódio 18 (Arembepe parte final)

Nos fins de semana aparecem os caretas para tomar banho no Caratingui querendo ver as moças nuas, cuja fama corre o mundo. Ficam decepcionados, porque os malucos não querem dar espetáculo para divertir ninguém de fora e, nos sábados e domingos, procuram ser discretos, fazendo até a concessão de botar bermudão, um biquini ou uma canga colorida. Existem exceções, como a Sandete, que diz não se vestir simplesmente porque não tem roupa nenhuma, nem lhe passa pela cabeça pedir emprestado – mesmo porque ninguém gosta de emprestar roupa. Isto não se faz. Uma coisa que se sabe é que roupa não se empresta, porque traz os fluidos do outro e isso pode não ser bom, ou para quem empresta ou para quem toma emprestado, dependendo do astral de cada um. Sandete pouco está ligando para quem estiver por perto, quando lhe dá na veneta de aparecer pelada. Mas a naturalidade da nudez dela é espontânea e ninguém se ofende. Ou quase ninguém. (Beto Hoisel  – Naquele tempo em Arembepe, pg. 55).

Foto Lula Afonso

SANDETE – A Aldeia estava linda. Os coqueiros enfileirados lá na duna pareciam bailarinas ensaiando para mais uma apresentação. Aqui é um lugar sem dia-a-dia, sem rotina e sem repetição. Naquela tarde, era eu e Tião. Ver nossos corpos flutuando nas águas do Caratingui era o nosso maior desejo. Distraídos, na água morna, olhávamos nossos corpos ali, enrolados só na paisagem, quando de repente aparece aquele homem saído de trás de uma moita, gritando que nunca na vida dele tinha visto tamanha pouca-vergonha. Assumindo uma de autoridade, com um enorme facão na mão, esbravejou: “Vocês estão pensando que aqui é o Paraíso, é? E que vocês são Adão e Eva?” Me controlei para não rir. Tião, um galalau de um metro e noventa, falou, arrastando a voz: “Calma, tio, eu estou nu porque estou lavando meu calção....” O homem se retou. E gritou: “Você sabe com quem está falando? Meu nome é Santa Rita e eu sou o delegado de Arembepe! Me disseram e eu não acreditei. Mas nós vamos resolver este negócio é na delegacia!” Agora vejam vocês: aquela areia branquinha, o rio espelhando beleza, nossos corpos nus ali, na maior, e aquele homem sacudindo um facão na frente da gente. Era difícil não acreditar que éramos Adão e Eva, com ele tirando onda de ser o anjo encarregado de expulsar os pecadores do Paraíso. “Olha, tio, a gente estava só lavando um calçãozinho. (...) Por que o senhor não vem até nossa casa? Tomamos um chá e conversamos sobre o nosso mundo, nossas ideias...” Aos poucos, as palavras de Tião foram acalmando o homenzinho. E lá fomos para casa. Eu me controlava ao máximo para não cair na risada. Era engraçado demais aquele trio: o delegado, de facão e tudo, entrando na aldeia no meio de dois hippies peladões. (Beto Hoisel – Naquele tempo em Arembepe, pg. 56).

arembepehttpwww.viagensmaneiras.comviagensarembepe.htm

LENINHA – Em 73, fomos passar o carnaval na Bahia, os três. Ficamos em Salvador um pouco e depois fomos para Arembepe. Cheguei lá num fim de tarde, tudo vermelho, aqueles coqueiros, aquelas cabanas, aquele mar... Alugamos uma casinha de pescador. (...) Fiquei quatro meses em Arembepe. Era fumo, ácido, viagens e ler Fernando Pessoa na praia todo dia. Cedinho, eu ajudava a puxar a rede, o pescador me dava um peixinho e já ganhava o dia, depois tinha uma comadre com uma máquina de costura, eu ia lá e costurava umas calças de saco, tingidas, amarradas na cintura, aquele estilo bem hiponga. E já comecei a usar aquela roupa. Eu estava adorando tudo aquilo. Foi a redenção. Rolavam uns rituais na lua cheia e passava muita gente. Era uma hora de passagem. Rolava uma integração, estava tudo batendo direitinho. Era o momento presente que importava. E eu estava ali. Quando começou o inverno e as chuvas, vi que o momento tinha acabado e voltei para São Paulo sem saber o que ia me acontecer. (Depoimento em Anos 70 – enquanto corria a barca, de Lucy Dias. Pg. 107).


ARLETE SOARES – Em Goa, cruzamos com uma canadense que, falando em lugares lindos citou Goa, Machu Picchu, no Peru, e "um lugar fantástico que vocês não podem deixar de conhecer no Brasil que é Arembepe". Ela não imaginava que fôssemos brasileiras, muito menos vindas da Bahia. (Relato de Arlete Soares no livro sobre sua viagem à Índia nos anos 70).

LUCY DIAS – Arembepe foi a primeira reunião da tribo. A galera conseguiu finalmente dar as caras no chamado ‘verão do desbunde’, em 1971. Todo mundo passou por lá nessa época. E seguiu passando sob o sol de janeiro de 72 e 73. De Roman Polanski a Janis Joplin, incluindo João Gilberto, violão e charos. (Anos 70 – enquanto corria a barca, pg. 106).

FERNANDO NOY – Um dos lugares mais sagrados daqueles tempos. Morei numa palhoça com Agrippino e Maria Esther, entre outros. Outra palhoça era o armazém de Pakura e sua família, ainda moradores da sonhada aldeia. Atrás das casas dava para ver o rio dourado fervendo, fazendo zig zag até o mar, aonde as águas se encontravam como dois amantes, de mel e sal. Depois, mais pra cima, a trinta metros, estava a Casa do Sol Nascente, abandonada na aparência, mas, sempre, refúgio seguro de hippies e viajantes do mundo inteiro. Uma catedral com as portas abertas e o coração sem cadeado.

Foto Lula Afonso

BETO HOISEL – Quando e como começou a aldeia hippie, não se sabe. Possivelmente, no fim dos anos sessenta algum chincheiro curtidor chegou e resolveu ficar. Fez casinha com palha de coqueiro e ninguém reclamou. Arrumou – ou tinha – companheira e foi ficando; encontrou outro maluco fazedor de colares e pulseiras em Itapuã e espalhou discretamente a descoberta. Foram aparecendo outros e outras, fazendo casinhas e ficando, sem ninguém reclamar. Tudo deserto, ninguém para encher o saco, natureza limpa, a praia, o rio, o pôr-do-sol e o nascer da lua, os coqueiros fornecendo material de construção e coco à vontade, para a fome e a sede. Arembepe logo ali, para um apoio imediato. E, principalmente, ninguém. Ninguém para reclamar dos trajes ou da falta deles, ninguém para fiscalizar os comportamentos assumidos. Silêncio e paz: lugar ideal para o amor, ao som discreto das guitarras, flautas e bongôs. Liberdade. Li-ber-da-de. Estava fundado o paraíso. (Naquele tempo em Arembepe, pg. 27).

Gustavo Augusto – Essas narrativas não estão representando Arembepe, principalmente nos verões de 71 e 72 que passei lá. Os depoimentos dão idéia de malucos pelados e drogados e não expressam a explosão da contracultura.

Anos Setenta Bahia – São depoimentos de gente que morou na aldeia e elaborou relatos que, comparados, convergem. A contracultura explodiu em escala planetária desde os 60's na Europa e Califórnia, matizou-se com a política na França em 68, ganhou corpo nos 70 com a formação espontânea de redutos paradisíacos como Arembepe, Berlinque e Goa, em comunidades rurais e nas grandes cidades. A busca de novos limites da percepção (com drogas ou não) e formatos alternativos de relacionamento individual e grupal, ligados à natureza e "marginal" ao sistema é indissociável da contracultura e não desqualifica o microcosmo comportamental na aldeia hippie ou em quaisquer outros lugares que polarizaram o movimento.

3 comentários:

  1. Morei na aldeia hippie de Arembepe em dezembro de 1973 até fevereiro de 1974, Fui lá observar a chegada do cometa Kohoutek que diziam seria observado com grande destaque no hemisfério sul. Durante várias noites aguardamos o astro chegar. Um argentino de nome, ou, apelido Coveiros tocava o violão no elevado das dunas, próximo da casa de Vera. Ao som do instrumento evocávamos as energias do universo. Fumávamos vários baseados que passavam de mão em mão e assim foi durante muitos dias até a noite em que vimos uma luz verde que se assemelhava a um disco voador e no delírio das drogas identificamos como o cometa. Não era. Ficamos sabendo semanas depois que o Kohoutek não foi visto no Brasil e que a luz verde nada mais era do que uma experiência espacial realizada em Natal, Rio Grande do Norte. Coveiros que dedilhava o violão como ninguém nunca mais foi visto da Bahia e da galera que formava um circulo energético na sua volta restou apenas a lembrança. Nenhuma foto,infelizmente.

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    1. Olá Nelson...conheço a ALDEIA desde 1997, eu tinha 17 anos, vou coementar com Verinha sobre essa história..quando vc comentou sobre isso eu me sentir lá nesse memento tb..rsrsrs...Já morei lá muitas vezes!!!..E pretendo voltar lá como sempre fiz, passar uma temporada!.ou sei lá..morar logo de vez...da útima vez que morei foi em 2011..levar minhas artes e músicas para resplandecer mais o espaço alternativo,realizar eventos,enfim...arte e cultura e muito rock''and roll!!...meu WhatsApp:(075)98228-5597

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    2. Também vi essa luz Nelson, foi maravilhosa e ao mesmo tempo assustador, pôs aumentou rapidamente e em segundos, parecia estar caindo sobre nós.

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