quarta-feira, 13 de julho de 2016

BARBARELA VAI VOAR!

Ensaio no TCA da precursora e sempre lembrada performance Mobilização, montagem geral com quase cem intérpretes da genial Lia Robatto. Foto: arquivo pessoal de Fernando Noy

Anos 70 Bahia – Episódio 25



A festa rolava solta no apartamento de Alfredo, tinha gente saindo pelo ladrão, gente na sala, na cozinha, nos quartos, nos banheiros. Os vizinhos chamaram a polícia por causa do som nas alturas. Quando os canas chegaram, Fernando Noy estava sentado na janela do sétimo andar, com os pés para fora. No meio daquela loucura toda, alguém gritou: “Barbarela vai voar!!!"

FERNANDO NOY – Barbarela é como fui chamado pelos que ainda não me conheciam e me viam passar, recém-chegado das praias e lugares daqueles tempos maravilhosos. Eu estava magérrima, loura a la Jane Fonda. Tinha os olhos dilatados pelo LSD nosso de cada dia “open window", e acabara de estrear o filme com esse nome, estrelado por Jane Fonda. Daí veio o apelido. “Ali vem a Barbarela, barbarizando..."

Fernando Noy: "Entrevista com a querida e brilhante Eleonora Ramos que, depois, montou o Café das Estrelas, no Rio Vermelho, em parceria com a outra deidade da Bahia, Petunia Maciel". Foto: arquivo pessoal de Fernando Noy

LULA AFONSO – Onde quer que fosse, Noy marcava presença e fazia acontecer, com seus cabelos dourados emoldurando a face larga e o sorriso fescenino, qual um querubim descolado das alegorias barrocas das igrejas baianas, ostentando o corpo dionisíaco e a pele curtida pelo sol do Porto da Barra, Arembepe e outros points onde os agitos aconteciam na época. Como se desembarcado de um filme de Fellini, ele aprontava todas e causava frisson onde quer que circulasse, chegando a interromper um show dos Novos Baianos na Concha Acústica superlotada (ver Episódio 2). Estrelas como Noy e Marquinhos Rebu luziam na constelação contracultural de performáticos, alucinados, outsiders, artistas da cabeça, do ritmo e do corpo, intelectuais rebeldes, músicos, carnavalescos, místicos, hippies e tantas outras figuras geniais que protagonizaram os anos setenta em Salvador.

Fernando Noy na praça Castro Alves: "Homenagem-segredo a Oxumaré, a pedido da grande Yaolorixá Menininha do Gantois, depois de visitá-la. Ora ie ie ô!" (Foto Antonio Neto)

FERNANDO NOY – Eu cheguei na Bahia por causa de Vinicius. Aqui [Buenos Aires], a barra estava ficando muito brava e a ditadura já tinha assassinado um grupo de amigos. Meu pai me disse para viajar para a França, onde morava minha bisavó Marie Neully de Picard, mas, uma noite, Ginamaria Hidalgo, cantora alucinante argentina, pediu-me que a acompanhasse para ver uma dupla, Vinicius e Toquinho. Quando cantaram "Você já foi à Bahia", eu perguntei aonde era, pois minha voz interior já alertara que esse era o lugar. Estava lá uma amiga do Rogério Duarte, o grande Rogério Duarte, que me deu o endereço de um sítio perto de onde morava Matilde Matos, em Armação. Ali, então, uma noite cheguei e me ofereceram uma grande boas-vindas, sem saberem quem eu era nem de onde vinha. Fiquei alguns dias, até partir para Arembepe levado por Vera, Vera de Arembepe, celebridade daqueles tempos, dona de uma cabana branquíssima e depois... o prazer infinito!!!

Do arquivo pessoal de Fernando Noy

GUIDO LIMA – Quando Fernando Noy chegou na Bahia, era conhecido como Evita Peron. Eu não sei se ele sabe disso, mas era assim que todo mundo se referia a ele, principalmente por causa da peruca loira que usava.

Na coluna Show Business, de Osmar Martins, Tribuna da Bahia (data não indicada). Arquivo pessoal de Fernando Noy. Comentário dos editores sobre o tema da nota: apesar do "ciúme" paroquialista, levado ao extremo na reação à vinda de Vinicius para morar em Itapuã com a musa baiana Gessy Gesse, a mídia do Rio e São Paulo não tinha como sonegar a efervescência que posicionava a Bahia como real centro cultural do país nos anos 70. Aqui, as coisas aconteciam.

FERNANDO NOY – Oh, Guido Lima querido, ser adorável! Jamais usei peruca. Naqueles tempos, ainda tinha minha cabeleira longa. Às vezes, como atrapalhava minhas asas, eu a penteava segurando, ao modo da minha adorada Eva Peron. Sei que me chamavam assim porque, além disso, eu também realizei uma fantasia Augusto-Boaliana de rua num grito de carnaval, viajando num carro Opel preto com chofer emprestado por Regi Catarino, por meio da sempre lembrada maravilhosa Nilda Spencer (axé para elas!), vestido como Evita e cumprimentado através das janelas. Muitos anos depois, eu me manifestei contra a ditadura também com o penteado de Evita, disso pode dar testemunho minha querida e admirada poeta de papel e vida Aninha Franco. Mais: como eu era magérrima por causa das anfetaminas etc., e meu cabelo tinha virado louro pelo sol arembepiano, alguns me chamavam Barbarela, por conta do filme então estreado por Jane Fonda. Mama Roma veio muito depois e foi o Raul inesquecível, que morava frente ao restaurante macrobiótico Panela de Barro, no Pelourinho, que insistia no meu parecer – desta vez com La Magnani. Eu saía da casa com Raul e um grupo de amigas e, cruzando a rua, não perdia nenhum dos coquetéis de Elyette Magalhaes, a hiper-surrealista do sorriso Dada, no Museu do Torço Bahiano. Elyete, personagem incrível que, além de me deixar utilizar vestes da exposição e me ensinar a fazer torços e tal, promoveu festas de arromba, oferecendo tudo de tudo, de cerveja a pinga e champanha misturados com suco de laranja e creme chantilly num panelão, o famoso trago Bellini, inventado por outra das minhas almas tão admiradas e, acho, semelhantes: Marlene Dietrich. Como sempre sobrava da enorme quantidade servida, Elyette me pedia para jogar na encruzilhada da esquina frente ao casarão que Glicéria Vasconcelos (axé, oh mãe Iroko!) destinara para o ainda não formado e atualmente já lendário bloco "Filhas de Gandhi". Que foi inaugurado com um show em seu benefício (tive a alegria de produzi-lo) com Zezé Motta e Luís Melodia ao vivo, a única atuação conjunta dos dois. Lembro-me estremecido de Negro Gato, com o qual eu dançava com todo mundo. Depois veio a ideia de realizar, ao lado também destes espaços, a Exopoema – Primeira Mostra de Poesia Ilustrada – nos muros do Senac, juntamente com o poeta Paulinho Barata, da qual participaram inumeráveis artistas plásticos e poetas. Impossível, sim, de enumerar, mas que consta nos arquivos dos jornais que promoveram o exitoso encontro.



ANINHA FRANCO – Noy era um emissor de energia boa na Baía dos Anos 70, como as festas de largo do verão, o carnaval da praça Castro Alves, as festas da Boca do Rio nas casas dos paulistas que ensandeceram temporariamente a Escola de Teatro, a praia do Porto da Barra, a vida do Kirimurê e Quincas Berro D’Água.
Num show dos Novos Baianos, Noy, com seus muitos quilos e um figurino copiado das ninfas gregas, dançava numa água perto do palco, original, quem sabe, empoçada da chuva, talvez, quando a vocalista Baby Consuelo, irritadíssima com o show de Noy que atraía mais atenção que ela, exigiu que a plateia optasse entre ela e Noy, e a plateia optou por Noy. Nessa Concha opinativa, Caetano Veloso mandou, um dia, alguns dos espectadores que o aporrinhavam às putas que os pariram em brasileiro impecável.
Mas a melhor atuação de Noy no período, intelectual respeitável na Argentina dos Kirchner, como um dia Mercedes Sosa me disse que ele seria, aqui em Salvador, foi quando, enlouquecido com as ditaduras, a sua, a nossa, as peruana e boliviana, com a ditadura latino-americana da guerra fria, o artista se vestiu de Eva Perón e adentrou o consulado argentino que havia numa Bahia mais buliçosa que hoje, para dizer Basta!
Nesse dia, Noy perdeu sua estada ilegal na cidade sem que eu, advogada jovem, com um processo de injúria às Forças Armadas nas costas, pudesse impedir. Choramos na despedida e, agora, saberemos como ele sobreviveu aos ditadores, mais truculentos que os nossos, para continuar emitindo sua luz de muitos volts e de muita purpurina, ainda hoje. (Trecho de artigo da coluna Trilhas, publicada no Correio da Bahia).
Cidelia Argolo – Quem da nossa geração não lembra dele?? Figuraço.. Estou aqui a pensar como, naquela época, buscávamos paraísos para morar, curtir e viajar. E isso vivendo no clima de uma ditadura militar. E ainda hoje continuamos buscando. Ontem foi Boca do Rio, Arembepe, Berlinque, Porto da Barra, Pituaçu, Bexiga etc; hoje é Capão, Igatu e outros paraísos que não vou revelar...



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