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| Ensaio no TCA da precursora e sempre lembrada performance Mobilização, montagem geral com quase cem intérpretes da genial Lia Robatto. Foto: arquivo pessoal de Fernando Noy |
Anos 70 Bahia – Episódio
25
A festa rolava solta no
apartamento de Alfredo, tinha gente saindo pelo ladrão, gente na sala, na
cozinha, nos quartos, nos banheiros. Os vizinhos chamaram a polícia por causa
do som nas alturas. Quando os canas chegaram, Fernando Noy estava sentado na janela
do sétimo andar, com os pés para fora. No meio daquela loucura toda, alguém
gritou: “Barbarela vai voar!!!"
FERNANDO NOY – Barbarela é
como fui chamado pelos que ainda não me conheciam e me viam passar,
recém-chegado das praias e lugares daqueles tempos maravilhosos. Eu estava
magérrima, loura a la Jane Fonda. Tinha os olhos dilatados pelo LSD nosso de
cada dia “open window", e acabara de estrear o filme com esse nome,
estrelado por Jane Fonda. Daí veio o apelido. “Ali vem a Barbarela, barbarizando..."
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| Fernando Noy: "Entrevista com a querida e brilhante Eleonora Ramos que, depois, montou o Café das Estrelas, no Rio Vermelho, em parceria com a outra deidade da Bahia, Petunia Maciel". Foto: arquivo pessoal de Fernando Noy |
LULA AFONSO – Onde quer
que fosse, Noy marcava presença e fazia acontecer, com seus cabelos dourados
emoldurando a face larga e o sorriso fescenino, qual um querubim descolado das
alegorias barrocas das igrejas baianas, ostentando o corpo dionisíaco e a pele
curtida pelo sol do Porto da Barra, Arembepe e outros points onde os agitos
aconteciam na época. Como se desembarcado de um filme de Fellini, ele aprontava
todas e causava frisson onde quer que circulasse, chegando a interromper um
show dos Novos Baianos na Concha Acústica superlotada (ver Episódio 2).
Estrelas como Noy e Marquinhos Rebu luziam na constelação contracultural de
performáticos, alucinados, outsiders, artistas da cabeça, do ritmo e do corpo,
intelectuais rebeldes, músicos, carnavalescos, místicos, hippies e tantas
outras figuras geniais que protagonizaram os anos setenta em Salvador.
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| Fernando Noy na praça Castro Alves: "Homenagem-segredo a Oxumaré, a pedido da grande Yaolorixá Menininha do Gantois, depois de visitá-la. Ora ie ie ô!" (Foto Antonio Neto) |
FERNANDO NOY – Eu cheguei
na Bahia por causa de Vinicius. Aqui [Buenos Aires], a barra estava ficando
muito brava e a ditadura já tinha assassinado um grupo de amigos. Meu pai me
disse para viajar para a França, onde morava minha bisavó Marie Neully de
Picard, mas, uma noite, Ginamaria Hidalgo, cantora alucinante argentina,
pediu-me que a acompanhasse para ver uma dupla, Vinicius e Toquinho. Quando
cantaram "Você já foi à Bahia", eu perguntei aonde era, pois minha
voz interior já alertara que esse era o lugar. Estava lá uma amiga do Rogério
Duarte, o grande Rogério Duarte, que me deu o endereço de um sítio perto de
onde morava Matilde Matos, em Armação. Ali, então, uma noite cheguei e me
ofereceram uma grande boas-vindas, sem saberem quem eu era nem de onde vinha.
Fiquei alguns dias, até partir para Arembepe levado por Vera, Vera de Arembepe,
celebridade daqueles tempos, dona de uma cabana branquíssima e depois... o
prazer infinito!!!
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| Do arquivo pessoal de Fernando Noy |
GUIDO LIMA – Quando
Fernando Noy chegou na Bahia, era conhecido como Evita Peron. Eu não sei se ele
sabe disso, mas era assim que todo mundo se referia a ele, principalmente por
causa da peruca loira que usava.
FERNANDO NOY – Oh, Guido Lima
querido, ser adorável! Jamais usei peruca. Naqueles tempos, ainda tinha minha
cabeleira longa. Às vezes, como atrapalhava minhas asas, eu a penteava
segurando, ao modo da minha adorada Eva Peron. Sei que me chamavam assim
porque, além disso, eu também realizei uma fantasia Augusto-Boaliana de rua num
grito de carnaval, viajando num carro Opel preto com chofer emprestado por Regi
Catarino, por meio da sempre lembrada maravilhosa Nilda Spencer (axé para
elas!), vestido como Evita e cumprimentado através das janelas. Muitos anos
depois, eu me manifestei contra a ditadura também com o penteado de Evita,
disso pode dar testemunho minha querida e admirada poeta de papel e vida Aninha
Franco. Mais: como eu era magérrima por causa das anfetaminas etc., e meu cabelo
tinha virado louro pelo sol arembepiano, alguns me chamavam Barbarela, por
conta do filme então estreado por Jane Fonda. Mama Roma veio muito depois e foi
o Raul inesquecível, que morava frente ao restaurante macrobiótico Panela de
Barro, no Pelourinho, que insistia no meu parecer – desta vez com La Magnani.
Eu saía da casa com Raul e um grupo de amigas e, cruzando a rua, não perdia
nenhum dos coquetéis de Elyette Magalhaes, a hiper-surrealista do sorriso Dada,
no Museu do Torço Bahiano. Elyete, personagem incrível que, além de me deixar
utilizar vestes da exposição e me ensinar a fazer torços e tal, promoveu festas
de arromba, oferecendo tudo de tudo, de cerveja a pinga e champanha misturados
com suco de laranja e creme chantilly num panelão, o famoso trago Bellini,
inventado por outra das minhas almas tão admiradas e, acho, semelhantes:
Marlene Dietrich. Como sempre sobrava da enorme quantidade servida, Elyette me
pedia para jogar na encruzilhada da esquina frente ao casarão que Glicéria
Vasconcelos (axé, oh mãe Iroko!) destinara para o ainda não formado e
atualmente já lendário bloco "Filhas de Gandhi". Que foi inaugurado
com um show em seu benefício (tive a alegria de produzi-lo) com Zezé Motta e
Luís Melodia ao vivo, a única atuação conjunta dos dois. Lembro-me estremecido
de Negro Gato, com o qual eu dançava com todo mundo. Depois veio a ideia de
realizar, ao lado também destes espaços, a Exopoema – Primeira Mostra de Poesia
Ilustrada – nos muros do Senac, juntamente com o poeta Paulinho Barata, da qual
participaram inumeráveis artistas plásticos e poetas. Impossível, sim, de
enumerar, mas que consta nos arquivos dos jornais que promoveram o exitoso
encontro.
ANINHA FRANCO – Noy era um
emissor de energia boa na Baía dos Anos 70, como as festas de largo do verão, o
carnaval da praça Castro Alves, as festas da Boca do Rio nas casas dos
paulistas que ensandeceram temporariamente a Escola de Teatro, a praia do Porto
da Barra, a vida do Kirimurê e Quincas Berro
D’Água.
Num
show dos Novos Baianos, Noy, com seus muitos quilos e um figurino copiado das
ninfas gregas, dançava numa água perto do palco, original, quem sabe, empoçada
da chuva, talvez, quando a vocalista Baby Consuelo, irritadíssima com o show de
Noy que atraía mais atenção que ela, exigiu que a plateia optasse entre ela e
Noy, e a plateia optou por Noy. Nessa Concha opinativa, Caetano Veloso mandou,
um dia, alguns dos espectadores que o aporrinhavam às putas que os pariram em
brasileiro impecável.
Mas
a melhor atuação de Noy no período, intelectual respeitável na Argentina dos
Kirchner, como um dia Mercedes Sosa me disse que ele seria, aqui em Salvador,
foi quando, enlouquecido com as ditaduras, a sua, a nossa, as peruana e
boliviana, com a ditadura latino-americana da guerra fria, o artista se vestiu
de Eva Perón e adentrou o consulado argentino que havia numa Bahia mais
buliçosa que hoje, para dizer Basta!
Nesse
dia, Noy perdeu sua estada ilegal na cidade sem que eu, advogada jovem, com um
processo de injúria às Forças Armadas nas costas, pudesse impedir. Choramos na
despedida e, agora, saberemos como ele sobreviveu aos ditadores, mais
truculentos que os nossos, para continuar emitindo sua luz de muitos volts e de
muita purpurina, ainda hoje. (Trecho de artigo da coluna Trilhas, publicada no Correio da
Bahia).
Cidelia Argolo – Quem
da nossa geração não lembra dele?? Figuraço.. Estou aqui a pensar como, naquela
época, buscávamos paraísos para morar, curtir e viajar. E isso vivendo no clima
de uma ditadura militar. E ainda hoje continuamos buscando. Ontem foi Boca do
Rio, Arembepe, Berlinque, Porto da Barra, Pituaçu, Bexiga etc; hoje é Capão,
Igatu e outros paraísos que não vou revelar...







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