domingo, 3 de julho de 2016

TUZÉ DE ABREU DESTAMPA A ARCA E RETIRA INÉDITOS DE JOÃO GILBERTO E NOVOS BAIANOS

Tuzé de Abreu: foto de Mario Cravo Neto

Anos 70 Bahia – Episódio 23

Depois de pular as fogueiras juninas, Anos 70 Bahia hibernou por uns dias e retorna com cheiro de pólvora: abrimos a temporada com um pergaminho precioso tirado do fundo da arca de recordações de Tuzé de Abreu. Nele o músico desvenda, em ritmo glauberiano, parte da gênese dos Novos Baianos (ele apresentou Paulinho Boca de Cantor a Morais Moreira e recebeu em casa Baby Consuelo) – e, também, relata o emocionante primeiro encontro com João Gilberto. De um lado, o perfeccionismo obsessivo do genial juazeirense de terno cinza, e do outro a anarquia criativa e performática dos neobaianos. Para quem não os conheceu ao vivo, só as fotos da época podem dar ideia de como eram. Modelados ambos, João e os Novos, em barros tão diferentes como os dois lados de uma impagável moeda. Não havia como não dar liga. Tim-tim!


TUZÉ DE ABREU – Tive muitas aventuras com os Novos Baianos. Não lembro se primeiro conheci Morais e Galvão (meus rivais nos festivais de música da época, como Gereba, Patinhas/João Santana, Antônio Carlos e Jocafi, Rosa Passos, Walter Queiroz, Márcio Bartillotti, Antônio Carlos Sena e tantos outros) ou Paulinho Boca, que era o cantor da orquestra onde eu tocava. Lembro que apresentei Paulo a Morais e Galvão numa casa onde morei – e onde veio parar Bernadete, futura Baby Consuelo (mais tarde Baby do Brasil), no esplendor dos 17 anos. Foi a primeira casa que ela conheceu na Bahia. No primeiro show maior feito por eles, “O desembarque dos bichos após o dilúvio”, no teatro Vila Velha, eu participava cantando Meteorango Kid. Era muito bom cantar acompanhado por Pepeu e Jorginho Gomes. Não lembro se Didi já estava. Este show era muito original. Nós cantávamos muitas vezes mascarados. Eu fazia um certo charme. Dizia que tocassem a introdução que eu entraria. Mas nem sempre dava para chegar no início do show: às vezes, combinado com Olga Maimone, atriz que morava no teatro, eu chegava pela porta dos fundos, que dava para a rua da Gamboa, botava uma das muitas máscaras que eles tinham à disposição e entrava quando estavam tocando a introdução de Meteorango. E saía logo depois de acabar a música, pela mesma porta.
O show tinha um super-homem que voava com cordas, um disco-voador, inúmeras participações inusitadas. O que eu fazia não era, nem de longe, o mais estranho. Foi um sucesso. Mais tarde reencontrei os Novos Baianos em São Paulo, onde eles foram assinar o primeiro contrato com uma gravadora. O produtor inicial deles foi João Araújo, o pai de Cazuza. De SP "desci" com eles para o Rio de Janeiro, onde morei por algum tempo no apartamento do Jardim Botânico. Certa vez fiz uma canção (“Que aparece”) em parceria com Morais e ela foi classificada no festival da TV Tupi de SP. Classifiquei, ainda, outra canção no mesmo festival. Conheci o grande maestro Luís Arruda Paes, que fez o meu arranjo muito gentilmente, usando todas as ideias que passei para ele. Mas nós éramos demasiadamente contraculturais. As canções foram defendidas de modo muito aleatório. Em vez de cantar minha própria canção (“Escute a minha voz dizendo adeus”), coloquei um baiano, candidato a cantor, Cláudio Dortas (hoje economista no Ceará), que barbarizou. Encheu a canção – que era romântica – de cacos, citações esdrúxulas e coisas assim. Nossa turma adorou, porém a canção não foi em frente no festival. Senti pelo sincero e gentil apoio do grande Luís Arruda Paes. Procurem este nome no Google. Não fiquei mais com os Novos Baianos. Perdi a grande fase com João Gilberto.
Citando JG, lembro aqui como o conheci. Primeiro, meu amigo Paulo Roberto Diniz, irmão do grande Édson Diniz, que já era amigo de João e me falava muito dele. Impressionava-me muito Paulinho cantando Doralice, a grande canção de Caymmi, que é uma das maiores gravações de JG. Depois meu pai, grande e eclético audiófilo, amigo de Carlos Coqueijo, que também era amigo de João. Ele apareceu lá em casa com o LP “Chega de Saudade”. Durante um tempo muito grande não se tocou outro disco por lá. Foram chegando os outros discos de João. Soube que ele tinha ido morar nos Estados Unidos. Já estudante universitário, fui passar uns dias no Rio. Penso que ainda não havia o aeroporto do Galeão, e todos os voos do Rio saíam e chegavam do/no Santos Dumont. Eu estava esperando o voo para Salvador, quando vi vindo na minha direção Paulinho Lima e João Gilberto. Abre parêntese: existem três Paulos Limas, baianos, músicos. Este que me apresentou ao João – e que foi mais tarde meu "senhorio", alugando-me um apartamento no Tambá-RJ, Paulo Costa Lima, doutor, compositor, professor, meu orientador no mestrado, e Paulo Gesteira Lima, cantor-compositor que trabalhou comigo no Fazcultura. Fecha parêntese. 
Quando vi o João, de paletó e gravata, segurando um estojo de violão, fiquei muito emocionado. Paulinho nos apresentou. Eu disse que já o conhecia e ele também disse que me conhecia. Disse-me João: “Você não é o amigo de Édson e Paulinho Diniz?" Ficamos amigos instantaneamente. Ele estava chegando dos States e eu indo para a Bahia. João pediu meu telefone e disse: "Daqui a poucos dias eu vou pra Bahia". Veio mesmo, me telefonou e eu praticamente me mudei pro hotel Plaza, onde ele estava hospedado.

Girando na vitrola sem parar...

JOSÉ CARLOS OLIVEIRA – Os Novos Baianos eram, no princípio, uma garota chamada Baby Consuelo, que aparecia no programa de Chacrinha. Bem doidinha, de microcamisola e longas botas negras de couro. Mais tarde, ela se uniu a um grupo de baianos com os quais passou a viver em comunidade. Trabalhavam irregularmente em shows por aí. Ofereciam uma imagem levemente desagradável, desgrenhados, barbudos, cuidadosamente esmolambados. Por essa razão, não eram levados a sério. Mas o Joãozinho da Som Livre fez fé, e cá estão agora os Novos Baianos com um LP intitulado Acabou Chorare. Eles são simplesmente sensacionais. (Trecho final da crônica “Estado febril”, no Caderno B do Jornal do Brasil, em 19 de fevereiro de 1973).

LUIZ GALVÃO – Baby, quando chegou nos Novos Baianos, foi como atriz. Participou de um filme com Giuliano Gemma, e no show "Desembarque dos bichos" recitou um texto. Só soubemos que ela cantava no Rio de Janeiro. E ela apareceu no Chacrinha depois do LP "Ferro na boneca", cantando "Curto de véu e grinalda". Esta é a verdadeira história da grande cantora e superstar que é hoje, com a voz cada vez melhor e toda energia que Deus lhe deu.

ANOS SETENTA BAHIA – Depoimento histórico e esclarecedor, feito por quem de direito. Valeu, Luiz Galvão!

Família musical 1975. Foto Zeca dos Novos Baianos


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