Anos 70 Bahia – Episódio
23
Depois de pular as
fogueiras juninas, Anos 70 Bahia hibernou por uns dias e retorna com cheiro de
pólvora: abrimos a temporada com um pergaminho precioso tirado do fundo da arca
de recordações de Tuzé de Abreu. Nele o músico desvenda, em ritmo glauberiano,
parte da gênese dos Novos Baianos (ele apresentou Paulinho Boca de Cantor a
Morais Moreira e recebeu em casa Baby Consuelo) – e, também, relata o
emocionante primeiro encontro com João Gilberto. De um lado, o perfeccionismo
obsessivo do genial juazeirense de terno cinza, e do outro a anarquia criativa
e performática dos neobaianos. Para quem não os conheceu ao vivo, só as fotos
da época podem dar ideia de como eram. Modelados ambos, João e os Novos, em
barros tão diferentes como os dois lados de uma impagável moeda. Não havia como
não dar liga. Tim-tim!
TUZÉ DE ABREU – Tive
muitas aventuras com os Novos Baianos. Não lembro se primeiro conheci Morais e
Galvão (meus rivais nos festivais de música da época, como Gereba,
Patinhas/João Santana, Antônio Carlos e Jocafi, Rosa Passos, Walter Queiroz,
Márcio Bartillotti, Antônio Carlos Sena e tantos outros) ou Paulinho Boca, que
era o cantor da orquestra onde eu tocava. Lembro que apresentei Paulo a Morais
e Galvão numa casa onde morei – e onde veio parar Bernadete, futura Baby
Consuelo (mais tarde Baby do Brasil), no esplendor dos 17 anos. Foi a primeira
casa que ela conheceu na Bahia. No primeiro show maior feito por eles, “O
desembarque dos bichos após o dilúvio”, no teatro Vila Velha, eu participava
cantando Meteorango Kid. Era muito bom cantar acompanhado por Pepeu e Jorginho
Gomes. Não lembro se Didi já estava. Este show era muito original. Nós
cantávamos muitas vezes mascarados. Eu fazia um certo charme. Dizia que
tocassem a introdução que eu entraria. Mas nem sempre dava para chegar no
início do show: às vezes, combinado com Olga Maimone, atriz que morava no
teatro, eu chegava pela porta dos fundos, que dava para a rua da Gamboa, botava
uma das muitas máscaras que eles tinham à disposição e entrava quando estavam
tocando a introdução de Meteorango. E saía logo depois de acabar a música, pela
mesma porta.
O show tinha um
super-homem que voava com cordas, um disco-voador, inúmeras participações
inusitadas. O que eu fazia não era, nem de longe, o mais estranho. Foi um
sucesso. Mais tarde reencontrei os Novos Baianos em São Paulo, onde eles foram
assinar o primeiro contrato com uma gravadora. O produtor inicial deles foi
João Araújo, o pai de Cazuza. De SP "desci" com eles para o Rio de
Janeiro, onde morei por algum tempo no apartamento do Jardim Botânico. Certa
vez fiz uma canção (“Que aparece”) em parceria com Morais e ela foi
classificada no festival da TV Tupi de SP. Classifiquei, ainda, outra canção no
mesmo festival. Conheci o grande maestro Luís Arruda Paes, que fez o meu
arranjo muito gentilmente, usando todas as ideias que passei para ele. Mas nós
éramos demasiadamente contraculturais. As canções foram defendidas de modo
muito aleatório. Em vez de cantar minha própria canção (“Escute a minha voz
dizendo adeus”), coloquei um baiano, candidato a cantor, Cláudio Dortas (hoje
economista no Ceará), que barbarizou. Encheu a canção – que era romântica – de
cacos, citações esdrúxulas e coisas assim. Nossa turma adorou, porém a canção
não foi em frente no festival. Senti pelo sincero e gentil apoio do grande Luís
Arruda Paes. Procurem este nome no Google. Não fiquei mais com os Novos
Baianos. Perdi a grande fase com João Gilberto.
Citando JG, lembro aqui
como o conheci. Primeiro, meu amigo Paulo Roberto Diniz, irmão do grande Édson
Diniz, que já era amigo de João e me falava muito dele. Impressionava-me muito
Paulinho cantando Doralice, a grande canção de Caymmi, que é uma das maiores
gravações de JG. Depois meu pai, grande e eclético audiófilo, amigo de Carlos
Coqueijo, que também era amigo de João. Ele apareceu lá em casa com o LP “Chega
de Saudade”. Durante um tempo muito grande não se tocou outro disco por lá.
Foram chegando os outros discos de João. Soube que ele tinha ido morar nos
Estados Unidos. Já estudante universitário, fui passar uns dias no Rio. Penso
que ainda não havia o aeroporto do Galeão, e todos os voos do Rio saíam e
chegavam do/no Santos Dumont. Eu estava esperando o voo para Salvador, quando
vi vindo na minha direção Paulinho Lima e João Gilberto. Abre parêntese:
existem três Paulos Limas, baianos, músicos. Este que me apresentou ao João – e
que foi mais tarde meu "senhorio", alugando-me um apartamento no
Tambá-RJ, Paulo Costa Lima, doutor, compositor, professor, meu orientador no
mestrado, e Paulo Gesteira Lima, cantor-compositor que trabalhou comigo no
Fazcultura. Fecha parêntese.
Quando vi o João, de
paletó e gravata, segurando um estojo de violão, fiquei muito emocionado.
Paulinho nos apresentou. Eu disse que já o conhecia e ele também disse que me conhecia.
Disse-me João: “Você não é o amigo de Édson e Paulinho Diniz?" Ficamos
amigos instantaneamente. Ele estava chegando dos States e eu indo para a Bahia.
João pediu meu telefone e disse: "Daqui a poucos dias eu vou pra
Bahia". Veio mesmo, me telefonou e eu praticamente me mudei pro hotel
Plaza, onde ele estava hospedado.
![]() |
| Girando na vitrola sem parar... |
JOSÉ CARLOS OLIVEIRA – Os
Novos Baianos eram, no princípio, uma garota chamada Baby Consuelo, que
aparecia no programa de Chacrinha. Bem doidinha, de microcamisola e longas
botas negras de couro. Mais tarde, ela se uniu a um grupo de baianos com os
quais passou a viver em comunidade. Trabalhavam irregularmente em shows por aí.
Ofereciam uma imagem levemente desagradável, desgrenhados, barbudos,
cuidadosamente esmolambados. Por essa razão, não eram levados a sério. Mas o
Joãozinho da Som Livre fez fé, e cá estão agora os Novos Baianos com um LP
intitulado Acabou Chorare. Eles são simplesmente sensacionais. (Trecho final da
crônica “Estado febril”, no Caderno B do Jornal do Brasil, em 19 de fevereiro
de 1973).
LUIZ GALVÃO – Baby, quando
chegou nos Novos Baianos, foi como atriz. Participou de um filme com Giuliano
Gemma, e no show "Desembarque dos bichos" recitou um texto. Só
soubemos que ela cantava no Rio de Janeiro. E ela apareceu no Chacrinha depois
do LP "Ferro na boneca", cantando "Curto de véu e grinalda".
Esta é a verdadeira história da grande cantora e superstar que é hoje, com a
voz cada vez melhor e toda energia que Deus lhe deu.
ANOS SETENTA BAHIA –
Depoimento histórico e esclarecedor, feito por quem de direito. Valeu, Luiz
Galvão!




Nenhum comentário:
Postar um comentário