sexta-feira, 27 de maio de 2016

MARIA ESTHER, JOSÉ AGRIPPINO E MANHÃ


Anos 70 Bahia – Episódio 5

BEG FIGUEIREDO – Acabei de ler, na página Anos 70 Bahia, uma publicação sobre Maria Esther Stockler e José Agrippino. Confesso que fiquei comovido! O artigo e seus comentários me levaram a uma viagem no tempo. O casal era deslumbrante. Tiveram uma filha absolutamente linda e intensa! Tive momentos maravilhosos com Manhã, ainda pré-adolescente. Ela carregava um 'savoir faire', como dizem os franceses. Aos 18 anos, já morando em Sampa, ela foi a uma festa. Irradiava uma beleza que encantava a todos, homens e mulheres. Me lembro que, quando íamos a um restaurante, a linda Manhã saía de mesa em mesa e as pessoas lhe perguntavam:
– Como é o seu nome?
E ela dizia:
– Manhã!
– Como?
– Manhã Auê Berêguedê Piatā Stockler!
Todas essas palavras, menos Stockler, significam: manhã!

E nessa festa um rapaz ficou tão deslumbrado pela Manhã, que lhe ofereceu uma carona. No princípio ela recusou, mais o cara foi tão insistente que ela aceitou. Durante o trajeto, o carinha não parava de olhar Manhã. Perdeu o controle do carro e bateu em um poste. Foi o fim daquela garota deslumbrante! No seu velório, a Maria Esther fez uma linda homenagem: um solo de dança, comovente! Manhã foi vítima da sua beleza! É foda!


ANOS 70 BAHIA – O trecho que impactou Beg Figueiredo – e muita gente mais:

"Ela prosseguiu, por umas duas horas, contando sua vivência com o guru. Os trabalhos em conjunto, como o famoso “O planeta dos mutantes”, escrito por Agrippino e dirigido por ela, primeiro espetáculo multimídia brasileiro. As viagens, as drogas, o adeus à família rica (era herdeira da casa financeira Haspa), a casa maluca em que viviam no Pacaembu – onde certa vez a polícia deu uma batida atrás de ácido e maconha. Foi algo tão violento que prostrou pesadamente Agrippino. O choque talvez tenha detonado o processo irreversível de esquizofrenia que levou o escritor para longe da consciência: no ato ele quis sair do Brasil, sentindo-se perseguido. E então as viagens à África, a vida psicodélica na Bahia, os filmes perdidos da dupla de artistas que queria trazer para o celuloide sua experiência, com uma coreografia que se pretendia ponte entre vida e arte. Daí os surtos de Agrippino, suas fugas (era visto praticando yoga nu em Ipanema), as brigas, o nascimento da filha Manhã, o divórcio, a grana encurtando. E a morte de Manhã, num acidente automobilístico. Tempo depois, Maria Ester se estabelecia em Paraty".

JOILDO GÓES – Manhã de Deus, de Esther e Zé Agrippino. Conheci todos e fomos vizinhos nos tempos cósmicos da Boca do Rio. Eu era vizinho de Esther e Agrippino e usava minha casa para fazermos música. Usava garrafas como instrumento musical. Foi lindo, muito lindo. Ficou marcado para sempre. Todas as noites Agrippino criava coisas fantásticas. Era um santo. Vi sua aura muitas e muitas vezes.Tentei depois ver Zé Agrippino, mas as notícias que me deram dele não eram alegres. Mas o conheci, um homem santo, que não tinha medo da morte, então tá salvo.

CARDAN DANTAS – Maria Esther, Agrippino e Manhã passaram um bom tempo desfrutando da beleza da Boca do Rio e fins da tarde na famosa Casa 40, ou na Praia dos Artistas. Agrippino falava muito pouco e passava todo o tempo escrevendo, mas Esther sempre muito à vontade, eles filmavam tudo... a primeira vez que vi a África foi nos filmes de Agrippino, eles no meio das tribos... eles eram fantásticos, pois nos traziam informações de tudo quanto era parte do mundo.

LIA ROBATTO – Essa mulher incrível, Esther Stockler, foi minha amiga a vida toda, apesar de morarmos em cidades diferentes. Acompanhei muito dos seus momentos felizes e trágicos, menos seu difícil final.

FERNANDO NOY – Maria Esther vivia em êxtase e projetava esse estado nos seus amigos... Estava grávida, com um sorriso incrivelmente contagioso e uma ironia digna dos “epicureos”, ao lado da beleza de ser que era seu José Agrippino, com quem dançava nua no rio da Aldeia, improvisando coreografias debaixo e por cima das águas douradas de Oxum. Esther me chamava Mama Noy, foi a primeira, porque, sempre que eu ia para a cidade, Mike me dava uma boa grana para comprar no Grão de Arroz as delícias que depois eu cozinhava com ela, acho que ela foi a precursora do veganismo. Lula querido enviava para ela figos secos, feijão azuki, gergelin, óleos e tantas delícias que a gente fazia acebolado com arroz integral, fritado como acarajé em dendê. A Maria Esther depois foi morar em Pituaçu e dai correram para a Boca do Rio, perto da casa de Guido Lima e Mariozinho Cravo Neto. Ela vivia em perpétuo performance, tanto como ele. Um dia me comentou que gostaria de parir a sua filha Manhã num palco – e não sei se isso aconteceu, embora muitas me fofocaram que sim. Acho que no Rio, à meia noite, nasceu Manhã, não sei ao certo, mas foi gestada na Bahia, isso é seguríssimo. Maria Esther tinha uma grande devoção pela poesia de George Trakl, justamente aquele poeta alemão que foi amigo de Serguei Esseni. (...).

DAVID TABOÃO – A influência de José Agrippino sobre o Tropicalismo é avassaladora. “Quando ele falava, todos silenciavam”, conta Jorge Mautner. “Tinha uma capacidade imensa de ouvir. Sabia como ninguém o momento certo de intervir. Quando abria a boca, sua opinião caía feito um tijolo na roda da conversa”, diz Caetano Veloso. (Blog “Bar & lanches do Taboão” – http://barelanchestaboao.blogspot.com.br/…/triste-fim-de-um…).

GUIDO LIMA – Quando ainda não tinha cooper e yoga, Zé Agrippino, que passou a morar na minha casa em Pituaçu (vindo de uma morada na África), já me ensinava os benefícios dessas práticas. Ele participou do Grupo Experimental de Dança de Lia Robatto.

ERA ENCARNAÇÃO – Zé Agrippino era um anjo perambulando pela terra.

BEG FIGUEREDO – Quando morava na ladeira da Barra, recebi algumas vezes a visita de José Agrippino. Como foi dito num comentário, era de poucas palavras, mas muito envolvente. Ele vinha me solicitar o apê para se encontrar com uma mulher misteriosa. Como dizer não para aquela grande figura?

LAODICEA ALBUQUERQUE – Me lembro de todos quando morei em Pituaçu. Depois, na ilha, Zé veio morar aqui, separado de Esther, e ficou em casa um tempo, mas são pessoas que nunca serão esquecidas... a arte estava dentro de Zé e Esther... e Manhã era uma deusa, Keka estava sempre com ela... um tempo de arte e amor... eternos. Todos os dias, de manhã cedo, Zé praticava tai-chi na praia, todo de branco, como um bailarino, com movimentos de uma delicadeza ímpar... na ilha, em Mar Grande, era uma imagem bela, doce, em sintonia com a música que (creio) chegava aos seus ouvidos em outras dimensões... essa imagem estará sempre presente na minha alma... uma viagem.

Fernando Noy – Foram embaixadores do mas alto astral, da luz, do poético encarnado na vida... a Manhã não conheci senão na pança da mãe... Envio uma plegaria para eles três na mesma estrela, nos dando sempre sua luz tão sublime... axé namasté!

Raimundo Matos de Leão – Conheci os dois quando frequentava a casa de Zé Possi, na Boca do Rio, que ele chamava de Boca do Riso. Depois encontrei Maria Esther em São Paulo, na companhia de Eduardo Esteves. Tempos bons.

Edmilson Araujo – Não conheci pessoalmente Agrippino e Maria Esther, mas sei da história deles, pois não há baiano da década de 1970 que não tenha tomado conhecimento do movimento chamado Tropicalismo, encabeçado por Gil, Caetano, Gal Costa, Bethânia etc., mas cujas ideias fora do "prumo" foram inspiradas no romance "PanAmérica", de José Agrippino, lembrado por Caetano na música "Sampa". Agrippino morreu esquizofrênico, em 2007, praticamente esquecido, em Embu, São Paulo.

Cardan Dantas – Conheci Maria Esther, Agrippino e Manhã. Moraram um tempo na Boca do Rio e sempre passavam na Casa 40, onde eu morava na época. Eles tinham chegado de uma viagem na Africa...

Carla Athayde – Anos Setenta Bahia, publiquem um livro com urgência!!!

Luiz Afonso Costa – Você está escrevendo esse livro ao participar, Carla Athayde. O formato é este mesmo, "escrito a 100 mãos". Cada episódio publicado no Face recebe contribuições on-line que são depois agregadas e comporão o texto final do livro. Sairá uma versão e-book lá para setembro e outra em papel mais para o fim do ano. Dê uma espiada no Editorial, na nossa página Anos Setenta Bahia – www.anos70ba.blogspot.com.

ARTHUR GHUMA – Quais as noticias atuais tanto de Maria Ester e do Zé?

EVA FIDELIS – Arthur Ghuma, os três deixaram o planeta. Primeiro Manhã, depois Agrippino e, há alguns anos, Esther teve um câncer e se negou a tratar-se com alopatia.


5 comentários:

  1. Queridos,tão queridos... Saudades...Que morem hoje na Ala Tropical do melhor dos Céus!... Nada a acrescentar,pois que,dispensável.

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  2. trágico fim para uma família tão tropical

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Lendo agora esse blog depois de tanto tempo.... Não consigo parar de chorar. Estava com Manhã antes dela ir para essa festa (e ela quase não foi) que terminou tragicamente.
    Faziamos um curso de teatro no Bixiga.
    Ela era lindíssima e eu estava muito apaixonado. 1994 foi o ano.
    Muitas "coincidências" antecederam esse acontecimento.
    Só depois de sua morte fui conhecer Maria Esther.... uma mulher incrível, mas Já destruida emocionalmente pela morte de sua unica filha.

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