Anos 70 Bahia – Episódio 24
Construída em 1549 pelo pelo primeiro governador geral do país, Tomé de
Souza, com o nome de Rua Direita dos Mercadores, a Rua Chile ganhou outros
nomes e várias transformações ao longo dos séculos, mas figurou, até os anos
70, como a principal rua de Salvador, seja como eixo dos poderes e centro de
compras e entretenimento, seja como ponto de encontro de políticos e membros da
sociedade afluente, seja como palco de lendárias figuras humanas que
frequentavam o centro da cidade. As elites tinham ali a sua passarela:
intelectuais faziam ponto nas nas livrarias e cafés, jovens concentravam-se nas
portas de lojas ostentando os melhores trajes, moças glamorosas desfilavam com
suas roupas da moda e o flerte corava faces e fazia brilhar os olhos.
NOEMI FONTES (jornalista) – A escritora [Consuelo Pondé de Sena] fala
dos encantos da Rua Chile, com suas lojas especializadas de tecidos, roupas
masculinas, do hotel Palace, onde se hospedavam artistas que vinham a Salvador
para shows. Ela conta que era um comércio fino, a exemplo das Lojas Sloper, que
vendia perfumes, joias, vestuários e utensílios femininos como lenços, bolsas e
chapéus e, também, a primeira loja de departamentos de Salvador, Duas Américas,
que comercializava tecidos e vestidos femininos e que inovou trazendo para a
cidade a primeira escada rolante. No local havia também a Livraria Civilização
Brasileira. (Reportagem da Tribuna da Bahia em (http://www.tribunadabahia.com.br/2013/08/24/rua-chile-esta-agonizando-em-salvador).
LUIZ CARLOS ALCOFORADO (postado no
Facebook em 5 de maio de 2016) – No meu tempo de estudante de segundo grau
(ginásio Severino Vieira, até hoje tido como o melhor do Brasil àquela época),
o point de Salvador era a Rua Chile, mais precisamente em frente ao edifício
Antônio Ferreira – a vinte metros da ladeira do Pau da Bandeira, onde a boite
Varandá, de Sandoval Caldas, dominava as noites boêmias. Um pouco adiante, na
Praça Municipal, a grande atração de todas as tardes era o guarda Pelé – na
época em que cabia à Polícia Militar controlar o trânsito da capital baiana.
Milhares de pessoas se deslocavam até a Prefeitura – que dividia espaço com a
Câmara de Vereadores, na praça Thomé de Sousa, onde se localiza também o
Elevador Lacerda, só para vê-lo trabalhando e se deliciando com suas
encenações, rodopios, posturas exemplares para esse trabalho. Na oportunidade,
o governador do Estado despachava no Palácio Rio Branco, esquina da praça Thomé
de Sousa com a Rua Chile, em frente à farmácia Chile, que era vizinha do Café
das Meninas, voltado para a Rua da Ajuda. Não se pode deixar de registrar a
existência da Biblioteca Pública na praça, a Delegacia de Jogos e Costumes (da
época de Manoel Quadros, o temido comissário; Augêncio Batista – agente
policial e "boxeur"; Juvenal Gentil Ribeiro, delegado de tóxicos e
entorpecentes, barbaramente assassinado pelo caseiro de seu sítio...); o famoso
bar Triunfo (hoje, no local, uma agência do Bradesco), na esquina da Rua da
Ajuda; a Assembléia Legislativa ficava na confluência da Saldanha da Gama,
Praça da Sé e Rua da Ajuda; terminal de ônibus na Praça da Sé, em frente ao
edificio Thêmis; cinemas Excelsior, Liceu, Art e Glória (que depois virou Cine
Tamoyo, quando Antônio Pithon resolveu dominar esse mercado de salas de
cinema); locais folclóricos como o Rumba Dancing, Snooker de Abel (cujo gerente
era seu filho, Armando); os bregas em pleno apogeu, valendo citar Cimara Brito,
China do 63 da Montanha, Montecarlo (do pernambucano Cavalcante, cujos gerentes
Paulo e Leda atendiam a numerosa clientela que gostava de ouvir o crooner da
banda – Bira, hoje na banda de Jô Soares); a Faculdade de Medicina no Terreiro
de Jesus, onde o turismo se resumia a visitar o Instituto Médico Legal para
acompanhar o famoso médico Charles Pitex fazendo autópsia e colocando seu
inseparável charuto entre os dedos do pé do morto. Ou, então, para ver in loco
as cabeças de Lampião (Virgulino, sem sobrenome... o Ferreira inventaram
depois...), Maria Bonita, Corisco e outros cangaceiros que aterrorizaram o
nordeste brasileiro, agindo como um Robin Hood nos anos 1930/1940...). Mas a grande
atração era o Pelé – até mesmo quando surgiu Tostão, que optou por trabalhar na
praça da Piedade, valendo-se dos mesmos trejeitos adotados pelo guarda Pelé.
Ele continua entre nós, aposentado, ganhou dinheiro fazendo propaganda da Varig
na televisão. Naquela época, quem dividia as atenções com ele era a
"mulher de roxo" – sempre deitada no passeio da famosa loja Duas
Américas, de Zezito Ferreira, um grande torcedor do Vitória; o feijão de Baía
(todas as noites, a partir das 22h, ocupando a esquina da Rua da Ajuda/Travessa
Ajuda...).
LUIZ GALVÃO – Conheci literalmente todos esses personagens, incluindo o esquadrão da morte.
ROBERTO SANT'ANA SANT'ANA – Aí, em frente à Farmácia Chile, quem dava show era o Guarda Pelé.
PAULO PEIXOTO – Farmácia Chile, na esquina da Rua Chile com a rua Tira Chapéu.
BEG FIGUEIREDO – Assistir uma performance do guarda Pelé, na rua Chile, era o máximo! Pelé brocava!
BRUNO PORCIÚNCULA – Todo o poder da cidade estava concentrado nela: o Palácio dos Governadores, a Câmara Municipal e a Prefeitura. Politicamente, a rua era o centro das decisões, além de ser o eixo que ligava a Praça Castro Alves ao Centro Administrativo da Cidade. Empresas jornalísticas tinham sua sede no local, advogados, médicos, todos os grandes profissionais possuíam escritórios e consultórios em suas ruas estreitas. (http://classicalbuses.blogspot.com.br/2015/03/salvador-rua-chile-1950.html)
ANOS 70 BAHIA – A década de 70, que disseminou no planeta as
transformações culturais iniciadas nos 60, traduziu-se, na Rua Chile (aqui por
razões econômicas e políticas de governo), no esvaziamento como palco de
compras, charme e poder, deslocado para outras áreas da cidade. Período de
metamorfose (o Centro Administrativo é do início da década e o shopping
Iguatemi de 1975) no qual, enquanto as tradições do Centro agonizavam, novos cenários e
personagens tomavam lugar na passarela.
Silvio Palmeira – Tenho grandes
recordações da minha juventude na Rua Chile e adjacências. Primeiro o chá da
tarde na Duas Américas, visitas e andar de escada rolante na Sloper. Depois
veio a fase de ir para a Rua Chile e ficar o dia todo encostado nos carros
vendo o vai e vem das pessoas, foi a fase de usar o brucutu (peça protetora do
esguicho de água dos fuscas). Nesta época fiz muitos amigos: Humberto Augusto
(Capone), Dedão, Paulo Dourado, Cabral entre outros, vi muito as figuras
folclóricas tais como o Guarda Pelé, Floripes, o velho mágico, a mulher de roxo e um carinha que não me lembro mais o nome que tinha o cabelo penteado com
bastante brilhantina e falava com todos muito educadamente. Bem aí vem a
fase do desbunde, no inicio de 1968, desfilando em plena Rua Chile quatro
figuras exóticas – quando falo "em plena Rua Chile" eles vinham
literalmente pelo meio da rua, não usavam o passeio, Mick Jagger e Marianne
Faithful, Keith Richards e Anita Pallemberg, lembro-me somente dos detalhes de
Mick com sua camisa com listra grossa e um esplendoroso chapéu (as mesmas
indumentarias da foto no Capacabana Palace). Sei que, depois daquela cena, minha
vida mudou completamente, meu sonho era deixar o cabelo crescer ou mesmo
comprar um peruca (rsss), fato que não se concretizou – em comprar a peruca claro!
Onde Mick se envolveu bastante com a cultura do candomblé, uma vivência
determinante para a sonoridade de “Sympathy For The Devil”, lançada no Beggars
Banquet, no final de 1968.
James
Martins –
Que beleza! Aí na frente [da farmácia Chile] Roberto Sant’Ana apresentou Caetano
a Gil! Ou tô enganado?
Roberto
Sant'Ana Sant'Ana –
Foi mais para a praça Castro Alves. Na porta da livraria Civilização
Brasileira, em frente à loja de moda masculina do senhor Adamastor, pai do Gláuber
Rocha. Na esquina extrema do Palace Hotel, onde funcionava uma sala de chá onde
tocava, às 17 horas, a orquestra de Britinho e seus Stukas. Serviço completo,
amigo.
James
Martins –
Puxa, serviço completo! Maravilha, Roberto!
Anos Setenta
Bahia –
Anos 70 Bahia traz ao lume, na palavra dos protagonistas, fatos e encontros que
fizeram a época... Valeu!
Paulo
Peixoto A
livraria Civilização Brasileira ficava na rua da Ajuda, próximo ao cartório.
LULA
AFONSO – Houve a Civilização Brasileira legendária (citada por Roberto
Sant’Ana), próxima à Sloper e quase frontal ao Adamastror, onde os intelectuais
faziam ponto, destruída pelo fogo. Naquela tarde nefasta eu estava na sala de
espera do dentista, sem entender o porquê da demora para ser chamado ao
gabinete de tortura. Em certo momento a atendente apareceu e perguntou se eu
não queria ver o incêndio. Notando meu ar apalermado, ela completou: “O
incêndio da livraria aqui do lado!” Corri para a varanda do consultório, de
onde testemunhei, do alto, as chamas devorando o prédio a uns 50 metros de
distância. Um tesouro de livros virando cinzas! A cultura baiana perdia um
ponto nodal na Rua Chile, o adolescente saiu feliz do consultório porque faltou energia e a
sessão de motorzinho nos dentes foi adiada para outro dia...
NELSON CADENA – Em 25 de julho de 1902, uma sexta feira, a Bahia recepcionou a marinha chilena, então uma das mais invejadas esquadras do mundo, com uma festa extraordinária, uma das maiores, senão a maior, que Salvador testemunhou em seus mais de 460 anos de história. O apogeu foi o desfile dos militares do país irmão pela Rua Direita do Palácio, que por decreto da Câmara Municipal, de 17/08/02, passava a ser denominada de Rua Chile em homenagem aos visitantes. No mesmo dia os edis aprovaram um crédito de 5 contos de reis para atender as despesas com os festejos. (...) A recepção aos chilenos foi também um ato midíático, alguns jornais exibiram manchetes sobre o assunto, durante doze dias consecutivos e foi uma comissão de jornalistas que acompanhou o governador Severino Vieira para receber os chilenos no desembarque no porto de Salvador. (Ibahia, setembro de 2012:




Esqueceram de falar do famoso Café das Meninas que ficava na esquina da Rua D´Ajuda com a Rua do Tira Chapéu , o café mais gostoso da cidade com as super maquinas Giggia italianas , e também dos elegantes ternos feito pelo Spinelli - Adão não se vestia porque Spinelli não existia , bem defronte da loja Adamastor esquina da Chile com a D Ájuda , onde fazia ternos de tecidos ingleses e de linho 120 irlandês que eram o máximo da elegância , da loja Lido dos irmãos Garrido , da lanchonete Cubana que ainda existe no elevador Lacerda com o famoso Dusty Miller e bolinhos , Curti muito tudo isto.
ResponderExcluirA Rua Chile era muito mais do que isso, Era o centro nervoso da cidade. Os hotéis Palace, Meridional, Nova Sintra e Chile hospedavam os mais ilustres visitantes aos políticos, embora os prefeitos do interior preferissem o Hotel Paris na Rua Ruy Barbosa. Além das Duas América (Magazine)onde a sociedade baiana ia saber das últimas ao som da Orquestra de Britinho e sus Stukas, enquantos os maridos iam experimentar seus ternos em Spinelli ou comprar adereços no Adamastor, ao lado da ETAM famosa por suas langeries importadas. A Sloper erqa uma referência para presentes finos, ao lado da Casa da Música. Bem pertinho a Livraria Civilização Brasileira, ao lado da Gruta de Lourdes com seus magníficos sanduiches!!! Na esquina da ladeira do Pau da Bandeira ficava a loja Chapelandia dos famosos chapéus Ramezoni. A tarde terminava no Colon ou na Cubana. Isso era a rua Chile dos anos 50 e 60, É pena que o Teatro São João já não estava mais lá, devorado por pavoroso incêndio no início do século passado. Ev tem muito mais. Aos poucos vamos contar...
ResponderExcluirTempos bons! O Adamastor, a Sloper, Duas Américas, hotel Palace ( minha famifam sempre se hospedava lá), fcia Chile, o famoso guarda Pelé.
ResponderExcluirLembro de muitas figuras daquele tempo, não curti tanto porque em 70 tinha 11 anos. Mas me lembro da visita da rainha Elizabeth, assisti no Edf. Eduardo de Morais, ainda inacabado. E aí, quando fui ficando mais velho, ainda andei muito na Sloper, Duas Américas e ganhava de meu pai algumas roupas da Lido. Mas só em dia de festa... era realmente muito bom.
ExcluirDe tudo que vi na Chile o que mais me marcou foi a “Mulher de Roxo”, sua voz, meio estridente, seu olhar penetrante que a mim, me causava certo medo. Falo dela no meu romance Noite em Paris que está sendo publicado no blogue de mesmo nome.
ResponderExcluir