terça-feira, 16 de agosto de 2016

OS ANOS SETENTA DANÇARAM

Suki Villas Boas em "Amarras", no SolarUnhao - foto DalmiroCoronel

Anos 70 Bahia – Episódio 32

Em uma década de fervura e reinvenção das linguagens artísticas na Bahia, em especial a música, a literatura e o teatro, a dança fazia a sua parte e vivia em permanente inovação, contando com uma constelação de protagonistas com a densidade e o carisma de Lia Robatto, Dulce Aquino, Grupo Intercena, Tran Chan, Clyde Morgan e Carmen Paternostro, entre outros. E ainda rolavam os festivais, lançando nos palcos da Soterópolis as luzes dessa nobre arte.

SÉRGIO SIQUEIRA – A dança causava buxixo na cidade, era uma festa permanente. Lembro-me, em especial, do espetáculo Mobilização, de Lia Robatto, quando o público foi convidado a conhecer as entranhas do Teatro Castro Alves. Em cortejo, acompanhávamos as performances dos dançarinos por espaços cênicos, corredores e bastidores, seguindo-se um “gran finale” no palco... O grupo Intercena arrasava nos seus criativos espetáculos com Suki Vilas Boas, Tereza Oliveira, Conga, Marli, Márcia, Carla e os músicos Sergio Souto, Afonso, Guilherme Maia. Sim, os anos setenta dançaram – no bom sentido – “aos pés do caboclo” com Mobilização, Graciela Figueroa e os festivais. A dança era vanguarda na Bahia e a quebra dos paradigmas começou com a vinda da bailarina Yanka Rudzka, ainda nos anos cinquenta. Ela fundou a primeira universidade de dança do país e fundiu o contemporâneo com elementos locais, sendo a primeira coreógrafa a colocar nos palcos a simbologia e os rituais do candomblé. Nos pouco mais de três anos que passou por aqui, deixou a sua marca e o seu trabalho teve continuidade, principalmente, nas mãos de Lia Robatto, que ela trouxe para cá de São Paulo, então com 17 anos.

Fotos para o espetáculo Mobilização, provavelmente clicadas por Sílvio Robatto.

Virgínia Miranda – Na Bahia rolava muita competência na dança, no teatro, na música, na escrita... Temos que olhar para essa época não com saudade, mas com uma grande alegria, um contentamento de ter estado ali!

Guido Lima – Tive a oportunidade de participar do Grupo Experimental de Dança da Bahia, dirigido por Lia Robatto, e participei de diversos espetáculos, inclusive da 1ª Bienal Latino-Americana em São Paulo. A proposta do Grupo e de Lia era integrar pessoas das diversas áreas artísticas para criar, de forma coletiva, todas as maravilhas que foram apresentadas, principalmente ao público baiano. Eram espetáculos grandiosos com participações de orquestras, bandas de rock, grandes atores, escritores, artistas pásticos e bailarinos que exploravam diversos ambientes, assim como o Teatro Castro Alves, Solar do Unhão, prédio da Bienal em São Paulo, ICBA e até praças públicas, assim como o Campo Grande no "Ao Pé do Caboclo". Tudo isso foi um grande presente para todos aqueles que tiveram a oportunidade de viver e ver esse momento de tanta criatividade. No início dos anos 70, a Bahia fervilhava de criatividade e realizações nos diversos pontos de encontros de artistas. No Teatro Vila Velha acontecia o "Meia Noite se Improvisa", onde qualquer pessoa podia se apresentar no palco para uma plateia com sede do novo. No Vila também acontecia o Teatro de Cordel, dirigido por João Augusto, e grandes musicais, assim como o "Tabaris", dirigido por Manoel Lopes Pontes, além dos grande shows de Caetano, Gal, Gil, Jorge Mautner, dentre milhares de outros. Tivemos também os grandes espetáculos infantis com propostas novas, destacando Deolindo Checcucci como o mais atuante nesse setor. Tudo era um espetáculo, inclusive o pôr do sol no Porto da Barra, também ponto de encontro de artistas.

Grupo Experimental de Dança - foto Dalmiro Coronel

BEG FIGUEIREDO – Assisti um espetáculo do Clyde Morgan, na Escola de Teatro. A princípio fiquei extasiado e depois intrigado: o Clyde nos conduzia a uma reflexão. Os nossos movimentos, o movimento de cada um se parecia com o movimento de um animal? Para mim, Clyde carregava o movimento de um cavalo. Esse americano era foda!

FAFÁ LEONARDO – Um dos meus grandes mestres, adoro.

Clyde Morgan. Imagem obtida em https://www.youtube.com/watch?v=K0VTZcpyFDE

EURICO DE JESUS – Vi Clyde Morgan dançar pela primeira vez na Concha Acústica do TCA, em 1976 ou 77, e me causou uma impressão fortíssima, inesquecível. Braços e pernas em movimentos harmoniosos projetando-se infinitamente no espaço, uma mescla de homem/animal/totem/mitológico expressando os mais variados sentimentos. Me influenciou muito e, acredito, a muitos outros rapazes, quando decidi abraçar a arte da dança como forma de expressão e profissão. Um grande artista, de inestimável importância histórica para a rate de dança na Bahia!

LULA AFONSO – O Grupo Experimental de Dança, criado por Lia Robatto, firmou-se como movimento artístico de vanguarda, explorando espaços cênicos alternativos e valorizando a cultura popular e a interação entre dançarinos e público. Em entrevista a Eduardo Uzeda (A Tarde, 20/03/14), Lia conta que o Grupo, “criado um ano depois do golpe militar, conseguiu burlar a censura, tornando-se o primeiro grupo de dança profissional independente de Salvador”. O espetáculo Mobilização, em 1978, exemplifica esse feito. Montado para a reinauguração do Teatro Castro Alves, espalhou, segundo a acadêmica Lauana Vilaronga, “quadros cênicos pelo interior do teatro, como o de pessoas amordaçadas empunhando cartazes em branco, um artista recluso em espaço com arame farpado, dentre outras cenas cujas leituras poderiam ir desde a reflexão sobre o próprio fazer artístico até a afronta da diretora ao regime político que a patrocinava”.

Coreografia de Lia Robatto no foyer do Teatro Castro Alves. Foto Sílvio Robatto

Lia Robatto clicada por Sílvio Robatto

HELENITA COSTA – O Teatro Castro Alves estava sendo reinaugurado e Lia Robatto resolveu mostrá-lo ao público como era por dentro e como funcionava. Reuniu vários grupos de artistas de balé, de teatro, de música e de dança e com eles montou performances diferentes, com cada grupo fazendo um tipo de ação (que se repetia num dado espaço ou o fazia de forma itinerante), marcando o trajeto dos visitantes por entre os diversos espaços do TCA. Em algumas salas havia gente ensaiando dança, em outra havia um músico tentando compor alguma coisa e por aí a coisa ia. A entrada era pelas coxias e no meio do percurso o público surpreendia-se no palco vendo os atores na plateia... O final era no foyer, todo mundo junto, os atores em atuações variadas. Pode-se dizer que Mobilização foi mais um trabalho de expressão corporal e de representação do que propriamente de dança.

Foto compartilhada por Guilherme Maia (primeiro à esquerda): Conga, Tereza Oliveira, Suki VB, Sérgio Souto, Afonso Corrêa

JOÃO ALFREDO FIGUEIREDO – Os anos 70 foram realmente cheios de acontecimentos artísticos e culturais que nos arrebataram e encheram nossas vidas de alegria e emoções. Recordo de uns três ou quatro anos em que o ápice (entre muitas linguagens e espetáculos, claro) era o Festival Internacional de Dança, no Teatro Castro Alves, com uma programação intensa envolvendo grandes grupos do Brasil e de fora. Eram eventos fundamentais para o desenvolvimento da dança inspirada na nossa diversidade, envolvendo pessoas brilhantes como Lia Robatto, Lúcia Mascarenhas, Carmem Paternostro, Carla Leite, Fernando Passos e outros que a memória não me traz agora. Para além dos espetáculos, os eventos traziam no seu bojo uma plataforma de discussão que sobrepunha as formas e impunha a nossa diversidade e nossas raízes junto com a plástica dos corpos supremamente trabalhados naquele contexto, com a identidade cultural da dança. Era um ferveção só. As Artes Cênicas e a Música, devem esse legado ao grande reitor da UFBA Edgar Santos, que foi pioneiro nesse desenvolvimento cultural. Na época, apesar da ditadura, tínhamos uma grande cobertura da direção do ICBA (Instituto Cultural Brasil Alemanha), palco de grandes eventos onde pontuou, de forma fantástica, o grupo Intercena, com Suki Vilas Boas, Teresa Oliveira e o bailarino Conga, capitaneados por Carla Leite e Carmem Paternostro. Foram momentos definitivamente maravilhosos. Naquela época, além do ICBA, em outra dimensão, um dos points mais badalados era o Restaurante Grão de Arroz, na Piedade, onde a maioria dos grupos ia se alimentar para a manutenção de seus corpinhos esbeltos e elásticos. Por lá, tive a oportunidade de conhecer grupos e pessoas que ainda me ocupam a memória. Como esquecer Patrícia Hungria de uma companhia carioca, a C5, que hoje vive em Nova York? Quando nos encontramos, é para falar daqueles tempos na Bahia... Outra que continua amiga é Ilana Marion, de um grupo paulista que não me recordo o nome agora. Mas a grande apoteose daqueles festivais, esperada por todos era a apresentação de Graziela Figueroa, a grande dançarina uruguaia que a todos encantava. Um nome, quase uma marca. Saudades...

Suki e Tereza: Intercena no ICBA, em foto de Sérgio Siqueira

JOSÉ JESUS BARRETO – Não esquecer o trabalho de Dulce Aquino na Escola de Dança da UFBA.

FERNANDO NOY – Eu tive a sorte de participar do inesquecível trabalho da grande Lia Robatto, que tomou todo o TCA desde a bilheteria, onde duas esfinges hiperkinéticas interpretadas por Marta Saback e Bethânia dos Guaranis, entregavam os ingressos...

Intercena: Raimundo Sodré , Suki Vb GuimarãesTereza Oliveira, Reginaldo Daniel Flores, Carmen Paternostro, Macalé e Rubens

EURICO DE JESUS – O espetáculo “Mobilização”, juntamente com “Ao pé do caboclo” realmente foram fenomenais, romperam com a convencional relação público/palco, transformando o espectador em parte do espetáculo, em total coerência com a revolucionária corrente artística da época, conhecida como “happening”.

Fernando Noy – Também lembro das Oficinas Internacionais de Dança Contemporânea que organizava Dulce Aquino, lotando a cidade de bailarinos de todo o mundo... A presença dos mestres Klaus e Angel Vianna e aquela bailarina hindu Flora Gata, que veio com seu marido fotógrafo, acho que no TCA. Bahia dançarina e preciosa, sempreeeeee!!!

Kadu Sampaio – Tran-Chan... vi e tirei várias fotos deste grupo porreta de dança!!!

Suki VB – E como dançaram!!!


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