Anos 70 Bahia – Episódio
32
Em uma década de fervura e
reinvenção das linguagens artísticas na Bahia, em especial a música, a
literatura e o teatro, a dança fazia a sua parte e vivia em permanente
inovação, contando com uma constelação de protagonistas com a densidade e o
carisma de Lia Robatto, Dulce Aquino, Grupo Intercena, Tran Chan, Clyde Morgan
e Carmen Paternostro, entre outros. E ainda rolavam os festivais, lançando nos
palcos da Soterópolis as luzes dessa nobre arte.
SÉRGIO SIQUEIRA – A dança
causava buxixo na cidade, era uma festa permanente. Lembro-me, em especial, do
espetáculo Mobilização, de Lia Robatto, quando o público foi convidado a
conhecer as entranhas do Teatro Castro Alves. Em cortejo, acompanhávamos as
performances dos dançarinos por espaços cênicos, corredores e bastidores,
seguindo-se um “gran finale” no palco... O grupo Intercena arrasava nos seus
criativos espetáculos com Suki Vilas Boas, Tereza Oliveira, Conga, Marli,
Márcia, Carla e os músicos Sergio Souto, Afonso, Guilherme Maia. Sim, os anos
setenta dançaram – no bom sentido – “aos pés do caboclo” com Mobilização,
Graciela Figueroa e os festivais. A dança era vanguarda na Bahia e a quebra dos
paradigmas começou com a vinda da bailarina Yanka Rudzka, ainda nos anos
cinquenta. Ela fundou a primeira universidade de dança do país e fundiu o
contemporâneo com elementos locais, sendo a primeira coreógrafa a colocar nos
palcos a simbologia e os rituais do candomblé. Nos pouco mais de três anos que
passou por aqui, deixou a sua marca e o seu trabalho teve continuidade,
principalmente, nas mãos de Lia Robatto, que ela trouxe para cá de São Paulo,
então com 17 anos.
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| Fotos para o espetáculo Mobilização, provavelmente clicadas por Sílvio Robatto. |
Virgínia Miranda – Na Bahia rolava muita
competência na dança, no teatro, na música, na escrita... Temos que olhar para
essa época não com saudade, mas com uma grande alegria, um contentamento de ter
estado ali!
Guido Lima – Tive a oportunidade de participar
do Grupo Experimental de Dança da Bahia, dirigido por Lia Robatto, e participei
de diversos espetáculos, inclusive da 1ª Bienal Latino-Americana em São Paulo.
A proposta do Grupo e de Lia era integrar pessoas das diversas áreas artísticas
para criar, de forma coletiva, todas as maravilhas que foram apresentadas,
principalmente ao público baiano. Eram espetáculos grandiosos com participações
de orquestras, bandas de rock, grandes atores, escritores, artistas pásticos e
bailarinos que exploravam diversos ambientes, assim como o Teatro Castro Alves,
Solar do Unhão, prédio da Bienal em São Paulo, ICBA e até praças públicas,
assim como o Campo Grande no "Ao Pé do Caboclo". Tudo isso foi um
grande presente para todos aqueles que tiveram a oportunidade de viver e ver
esse momento de tanta criatividade. No início dos anos 70, a Bahia fervilhava
de criatividade e realizações nos diversos pontos de encontros de artistas. No
Teatro Vila Velha acontecia o "Meia Noite se Improvisa", onde
qualquer pessoa podia se apresentar no palco para uma plateia com sede do novo.
No Vila também acontecia o Teatro de Cordel, dirigido por João Augusto, e
grandes musicais, assim como o "Tabaris", dirigido por Manoel Lopes
Pontes, além dos grande shows de Caetano, Gal, Gil, Jorge Mautner, dentre
milhares de outros. Tivemos também os grandes espetáculos infantis com
propostas novas, destacando Deolindo Checcucci como o mais atuante nesse setor.
Tudo era um espetáculo, inclusive o pôr do sol no Porto da Barra, também ponto
de encontro de artistas.
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| Grupo Experimental de Dança - foto Dalmiro Coronel |
BEG FIGUEIREDO – Assisti
um espetáculo do Clyde Morgan, na Escola de Teatro. A princípio fiquei
extasiado e depois intrigado: o Clyde nos conduzia a uma reflexão. Os nossos
movimentos, o movimento de cada um se parecia com o movimento de um animal?
Para mim, Clyde carregava o movimento de um cavalo. Esse americano era foda!
FAFÁ LEONARDO – Um dos
meus grandes mestres, adoro.
EURICO DE JESUS – Vi Clyde
Morgan dançar pela primeira vez na Concha Acústica do TCA, em 1976 ou 77, e me
causou uma impressão fortíssima, inesquecível. Braços e pernas em movimentos
harmoniosos projetando-se infinitamente no espaço, uma mescla de
homem/animal/totem/mitológico expressando os mais variados sentimentos. Me
influenciou muito e, acredito, a muitos outros rapazes, quando decidi abraçar a
arte da dança como forma de expressão e profissão. Um grande artista, de
inestimável importância histórica para a rate de dança na Bahia!
LULA AFONSO – O Grupo
Experimental de Dança, criado por Lia Robatto, firmou-se como movimento
artístico de vanguarda, explorando espaços cênicos alternativos e valorizando a
cultura popular e a interação entre dançarinos e público. Em entrevista a
Eduardo Uzeda (A Tarde, 20/03/14), Lia conta que o Grupo, “criado um ano depois
do golpe militar, conseguiu burlar a censura, tornando-se o primeiro grupo de
dança profissional independente de Salvador”. O espetáculo Mobilização, em
1978, exemplifica esse feito. Montado para a reinauguração do Teatro Castro
Alves, espalhou, segundo a acadêmica Lauana Vilaronga, “quadros cênicos pelo
interior do teatro, como o de pessoas amordaçadas empunhando cartazes em
branco, um artista recluso em espaço com arame farpado, dentre outras cenas
cujas leituras poderiam ir desde a reflexão sobre o próprio fazer artístico até
a afronta da diretora ao regime político que a patrocinava”.
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| Coreografia de Lia Robatto no foyer do Teatro Castro Alves. Foto Sílvio Robatto |
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| Lia Robatto clicada por Sílvio Robatto |
HELENITA COSTA – O Teatro
Castro Alves estava sendo reinaugurado e Lia Robatto resolveu mostrá-lo ao
público como era por dentro e como funcionava. Reuniu vários grupos de artistas
de balé, de teatro, de música e de dança e com eles montou performances
diferentes, com cada grupo fazendo um tipo de ação (que se repetia num dado
espaço ou o fazia de forma itinerante), marcando o trajeto dos visitantes por
entre os diversos espaços do TCA. Em algumas salas havia gente ensaiando dança,
em outra havia um músico tentando compor alguma coisa e por aí a coisa ia. A
entrada era pelas coxias e no meio do percurso o público surpreendia-se no
palco vendo os atores na plateia... O final era no foyer, todo mundo junto, os
atores em atuações variadas. Pode-se dizer que Mobilização foi mais um trabalho
de expressão corporal e de representação do que propriamente de dança.
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Foto compartilhada por Guilherme Maia (primeiro à esquerda): Conga, Tereza Oliveira, Suki VB, Sérgio Souto, Afonso Corrêa
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JOÃO ALFREDO FIGUEIREDO –
Os anos 70 foram realmente cheios de acontecimentos artísticos e culturais que
nos arrebataram e encheram nossas vidas de alegria e emoções. Recordo de uns
três ou quatro anos em que o ápice (entre muitas linguagens e espetáculos,
claro) era o Festival Internacional de Dança, no Teatro Castro Alves, com uma
programação intensa envolvendo grandes grupos do Brasil e de fora. Eram eventos
fundamentais para o desenvolvimento da dança inspirada na nossa diversidade,
envolvendo pessoas brilhantes como Lia Robatto, Lúcia Mascarenhas, Carmem
Paternostro, Carla Leite, Fernando Passos e outros que a memória não me traz
agora. Para além dos espetáculos, os eventos traziam no seu bojo uma plataforma
de discussão que sobrepunha as formas e impunha a nossa diversidade e nossas
raízes junto com a plástica dos corpos supremamente trabalhados naquele contexto,
com a identidade cultural da dança. Era um ferveção só. As Artes Cênicas e a
Música, devem esse legado ao grande reitor da UFBA Edgar Santos, que foi
pioneiro nesse desenvolvimento cultural. Na época, apesar da ditadura, tínhamos
uma grande cobertura da direção do ICBA (Instituto Cultural Brasil Alemanha),
palco de grandes eventos onde pontuou, de forma fantástica, o grupo Intercena,
com Suki Vilas Boas, Teresa Oliveira e o bailarino Conga, capitaneados por
Carla Leite e Carmem Paternostro. Foram momentos definitivamente maravilhosos.
Naquela época, além do ICBA, em outra dimensão, um dos points mais badalados
era o Restaurante Grão de Arroz, na Piedade, onde a maioria dos grupos ia se
alimentar para a manutenção de seus corpinhos esbeltos e elásticos. Por lá,
tive a oportunidade de conhecer grupos e pessoas que ainda me ocupam a memória.
Como esquecer Patrícia Hungria de uma companhia carioca, a C5, que hoje vive em
Nova York? Quando nos encontramos, é para falar daqueles tempos na Bahia...
Outra que continua amiga é Ilana Marion, de um grupo paulista que não me
recordo o nome agora. Mas a grande apoteose daqueles festivais, esperada por
todos era a apresentação de Graziela Figueroa, a grande dançarina uruguaia que
a todos encantava. Um nome, quase uma marca. Saudades...
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| Suki e Tereza: Intercena no ICBA, em foto de Sérgio Siqueira |
JOSÉ JESUS BARRETO – Não
esquecer o trabalho de Dulce Aquino na Escola de Dança da UFBA.
FERNANDO NOY – Eu tive a
sorte de participar do inesquecível trabalho da grande Lia Robatto, que tomou
todo o TCA desde a bilheteria, onde duas esfinges hiperkinéticas interpretadas
por Marta Saback e Bethânia dos Guaranis, entregavam os ingressos...
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| Intercena: Raimundo Sodré , Suki Vb Guimarães, Tereza Oliveira, Reginaldo Daniel Flores, Carmen Paternostro, Macalé e Rubens |
EURICO DE JESUS – O
espetáculo “Mobilização”, juntamente com “Ao pé do caboclo” realmente foram
fenomenais, romperam com a convencional relação público/palco, transformando o
espectador em parte do espetáculo, em total coerência com a revolucionária
corrente artística da época, conhecida como “happening”.
Fernando Noy – Também lembro das Oficinas
Internacionais de Dança Contemporânea que organizava Dulce Aquino, lotando a
cidade de bailarinos de todo o mundo... A presença dos mestres Klaus e Angel
Vianna e aquela bailarina hindu Flora Gata, que veio com seu marido fotógrafo,
acho que no TCA. Bahia dançarina e preciosa, sempreeeeee!!!
Kadu Sampaio – Tran-Chan... vi e tirei várias
fotos deste grupo porreta de dança!!!
Suki VB – E como dançaram!!!









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