![]() |
| Nei Matogrosso em arembepe - 1974 - foto compartilhada de Cristiano Costa |
Anos 70 Bahia – Episódio
18 (Arembepe parte final)
Nos fins de semana
aparecem os caretas para tomar banho no Caratingui querendo ver as moças nuas,
cuja fama corre o mundo. Ficam decepcionados, porque os malucos não querem dar
espetáculo para divertir ninguém de fora e, nos sábados e domingos, procuram
ser discretos, fazendo até a concessão de botar bermudão, um biquini ou uma
canga colorida. Existem exceções, como a Sandete, que diz não se vestir
simplesmente porque não tem roupa nenhuma, nem lhe passa pela cabeça pedir
emprestado – mesmo porque ninguém gosta de emprestar roupa. Isto não se faz.
Uma coisa que se sabe é que roupa não se empresta, porque traz os fluidos do
outro e isso pode não ser bom, ou para quem empresta ou para quem toma
emprestado, dependendo do astral de cada um. Sandete pouco está ligando para
quem estiver por perto, quando lhe dá na veneta de aparecer pelada. Mas a
naturalidade da nudez dela é espontânea e ninguém se ofende. Ou quase ninguém.
(Beto Hoisel – Naquele tempo em Arembepe, pg. 55).
![]() |
| Foto Lula Afonso |
SANDETE – A Aldeia estava
linda. Os coqueiros enfileirados lá na duna pareciam bailarinas ensaiando para
mais uma apresentação. Aqui é um lugar sem dia-a-dia, sem rotina e sem
repetição. Naquela tarde, era eu e Tião. Ver nossos corpos flutuando nas águas
do Caratingui era o nosso maior desejo. Distraídos, na água morna, olhávamos nossos
corpos ali, enrolados só na paisagem, quando de repente aparece aquele homem
saído de trás de uma moita, gritando que nunca na vida dele tinha visto tamanha
pouca-vergonha. Assumindo uma de autoridade, com um enorme facão na mão,
esbravejou: “Vocês estão pensando que aqui é o Paraíso, é? E que vocês são Adão
e Eva?” Me controlei para não rir. Tião, um galalau de um metro e noventa,
falou, arrastando a voz: “Calma, tio, eu estou nu porque estou lavando meu
calção....” O homem se retou. E gritou: “Você sabe com quem está falando? Meu
nome é Santa Rita e eu sou o delegado de Arembepe! Me disseram e eu não
acreditei. Mas nós vamos resolver este negócio é na delegacia!” Agora vejam
vocês: aquela areia branquinha, o rio espelhando beleza, nossos corpos nus ali,
na maior, e aquele homem sacudindo um facão na frente da gente. Era difícil não
acreditar que éramos Adão e Eva, com ele tirando onda de ser o anjo encarregado
de expulsar os pecadores do Paraíso. “Olha, tio, a gente estava só lavando um
calçãozinho. (...) Por que o senhor não vem até nossa casa? Tomamos um chá e
conversamos sobre o nosso mundo, nossas ideias...” Aos poucos, as palavras de
Tião foram acalmando o homenzinho. E lá fomos para casa. Eu me controlava ao
máximo para não cair na risada. Era engraçado demais aquele trio: o delegado,
de facão e tudo, entrando na aldeia no meio de dois hippies peladões. (Beto
Hoisel – Naquele tempo em Arembepe, pg. 56).
![]() |
| arembepehttpwww.viagensmaneiras.comviagensarembepe.htm |
LENINHA – Em 73, fomos
passar o carnaval na Bahia, os três. Ficamos em Salvador um pouco e depois fomos
para Arembepe. Cheguei lá num fim de tarde, tudo vermelho, aqueles coqueiros,
aquelas cabanas, aquele mar... Alugamos uma casinha de pescador. (...) Fiquei
quatro meses em Arembepe. Era fumo, ácido, viagens e ler Fernando Pessoa na
praia todo dia. Cedinho, eu ajudava a puxar a rede, o pescador me dava um
peixinho e já ganhava o dia, depois tinha uma comadre com uma máquina de
costura, eu ia lá e costurava umas calças de saco, tingidas, amarradas na
cintura, aquele estilo bem hiponga. E já comecei a usar aquela roupa. Eu estava
adorando tudo aquilo. Foi a redenção. Rolavam uns rituais na lua cheia e
passava muita gente. Era uma hora de passagem. Rolava uma integração, estava
tudo batendo direitinho. Era o momento presente que importava. E eu estava ali.
Quando começou o inverno e as chuvas, vi que o momento tinha acabado e voltei
para São Paulo sem saber o que ia me acontecer. (Depoimento em Anos 70 –
enquanto corria a barca, de Lucy Dias. Pg. 107).
ARLETE
SOARES – Em Goa, cruzamos com uma canadense que, falando em lugares lindos
citou Goa, Machu Picchu, no Peru, e "um lugar fantástico que vocês não
podem deixar de conhecer no Brasil que é Arembepe". Ela não imaginava que
fôssemos brasileiras, muito menos vindas da Bahia. (Relato de Arlete Soares no
livro sobre sua viagem à Índia nos anos 70).
LUCY DIAS – Arembepe foi a
primeira reunião da tribo. A galera conseguiu finalmente dar as caras no
chamado ‘verão do desbunde’, em 1971. Todo mundo passou por lá nessa época. E
seguiu passando sob o sol de janeiro de 72 e 73. De Roman Polanski a Janis
Joplin, incluindo João Gilberto, violão e charos. (Anos 70 – enquanto corria a
barca, pg. 106).
FERNANDO NOY – Um dos
lugares mais sagrados daqueles tempos. Morei numa palhoça com Agrippino e Maria
Esther, entre outros. Outra palhoça era o armazém de Pakura e sua família,
ainda moradores da sonhada aldeia. Atrás das casas dava para ver o rio dourado
fervendo, fazendo zig zag até o mar, aonde as águas se encontravam como dois
amantes, de mel e sal. Depois, mais pra cima, a trinta metros, estava a Casa do
Sol Nascente, abandonada na aparência, mas, sempre, refúgio seguro de hippies e
viajantes do mundo inteiro. Uma catedral com as portas abertas e o coração sem
cadeado.
![]() |
| Foto Lula Afonso |
BETO HOISEL – Quando e
como começou a aldeia hippie, não se sabe. Possivelmente, no fim dos anos
sessenta algum chincheiro curtidor chegou e resolveu ficar. Fez casinha com
palha de coqueiro e ninguém reclamou. Arrumou – ou tinha – companheira e foi
ficando; encontrou outro maluco fazedor de colares e pulseiras em Itapuã e
espalhou discretamente a descoberta. Foram aparecendo outros e outras, fazendo
casinhas e ficando, sem ninguém reclamar. Tudo deserto, ninguém para encher o
saco, natureza limpa, a praia, o rio, o pôr-do-sol e o nascer da lua, os
coqueiros fornecendo material de construção e coco à vontade, para a fome e a
sede. Arembepe logo ali, para um apoio imediato. E, principalmente, ninguém.
Ninguém para reclamar dos trajes ou da falta deles, ninguém para fiscalizar os
comportamentos assumidos. Silêncio e paz: lugar ideal para o amor, ao som
discreto das guitarras, flautas e bongôs. Liberdade. Li-ber-da-de. Estava
fundado o paraíso. (Naquele tempo em Arembepe, pg. 27).
Gustavo Augusto – Essas
narrativas não estão representando Arembepe, principalmente nos verões de 71 e
72 que passei lá. Os depoimentos dão idéia de malucos pelados e drogados e não
expressam a explosão da contracultura.
Anos Setenta
Bahia – São depoimentos de gente que morou na aldeia e elaborou relatos
que, comparados, convergem. A contracultura explodiu em escala planetária desde
os 60's na Europa e Califórnia, matizou-se com a política na França em 68,
ganhou corpo nos 70 com a formação espontânea de redutos paradisíacos como
Arembepe, Berlinque e Goa, em comunidades rurais e nas grandes cidades. A busca
de novos limites da percepção (com drogas ou não) e formatos alternativos de
relacionamento individual e grupal, ligados à natureza e "marginal"
ao sistema é indissociável da contracultura e não desqualifica o microcosmo
comportamental na aldeia hippie ou em quaisquer outros lugares que polarizaram
o movimento.





Morei na aldeia hippie de Arembepe em dezembro de 1973 até fevereiro de 1974, Fui lá observar a chegada do cometa Kohoutek que diziam seria observado com grande destaque no hemisfério sul. Durante várias noites aguardamos o astro chegar. Um argentino de nome, ou, apelido Coveiros tocava o violão no elevado das dunas, próximo da casa de Vera. Ao som do instrumento evocávamos as energias do universo. Fumávamos vários baseados que passavam de mão em mão e assim foi durante muitos dias até a noite em que vimos uma luz verde que se assemelhava a um disco voador e no delírio das drogas identificamos como o cometa. Não era. Ficamos sabendo semanas depois que o Kohoutek não foi visto no Brasil e que a luz verde nada mais era do que uma experiência espacial realizada em Natal, Rio Grande do Norte. Coveiros que dedilhava o violão como ninguém nunca mais foi visto da Bahia e da galera que formava um circulo energético na sua volta restou apenas a lembrança. Nenhuma foto,infelizmente.
ResponderExcluirOlá Nelson...conheço a ALDEIA desde 1997, eu tinha 17 anos, vou coementar com Verinha sobre essa história..quando vc comentou sobre isso eu me sentir lá nesse memento tb..rsrsrs...Já morei lá muitas vezes!!!..E pretendo voltar lá como sempre fiz, passar uma temporada!.ou sei lá..morar logo de vez...da útima vez que morei foi em 2011..levar minhas artes e músicas para resplandecer mais o espaço alternativo,realizar eventos,enfim...arte e cultura e muito rock''and roll!!...meu WhatsApp:(075)98228-5597
ExcluirTambém vi essa luz Nelson, foi maravilhosa e ao mesmo tempo assustador, pôs aumentou rapidamente e em segundos, parecia estar caindo sobre nós.
Excluir